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Crônica#5 | 31 de Agosto, Dia do Golpe

Sabe quando você se pergunta por que alguém pixou esse muro? Por que alguém quebrou essa vidraça? Por que alguém ateou fogo nesse carro? Eu acredito que eles fizeram porque precisavam fazer alguma coisa. Precisavam mostrar que estava ali e não podiam aceitar aquela normatização da situação.

Estou aqui sentada, enquanto as sensações estranhas, que nomeamos de revolta, raiva e fúria, percorrem os nervos. Não faço nada. Tudo está desmorando e eu não estou fazendo nada para deter. Essa impotência me assombra. Quem conseguiu desorganizar a trajetória e dizer o que é certo quando todos sabem que está errado?

Se eu tacar uma pedra, se eu incendiar as ruas, se eu criar o caos, pelo menos vão saber que não aceitei o golpe quieta. Como a gente apanha e não reage? A terceira lei de Newton diz para cada ação há uma reação. Como posso me acomodar e dizer que não é comigo? É comigo, é com ele, é com ela, é com todos.

Tenho medo de acordar em uma terra de zumbis grunindo sem saber o que, se conformando com a desgraça, reclamando para os céus – acreditando que existe algo lá – e não fazendo nada aqui. Infelizmente, acho que esse temor já está aqui. Hoje se instalou. Eu não fiz nada para impedir

Crônica#4 | Sentimentos Desacomodados

O que te faz despertar? Esta pergunta eu faço a mim mesma todos os dias ao abrir os olhos e relembrar os resquícios dos meus últimos sonhos. Tenho o costume de interpretá-los e tentar decifrar o que eles representam no atual momento da minha vida. Após estudar psicanálise por dois anos, sei que o nosso inconsciente significa e essas mensagens em frações do segundo da minha memória são respostas aos meu pensamentos mais profundos. Profundos porque eu não os compartilho verbalmente com ninguém, o que não é nunca a melhor opção. Mas como pôr em palavras o que não conseguimos descrever mentalmente?

Semana passada durante meu almoço sozinha na cozinha do meu atual emprego, eu descobri um tema ótimo para escrever um livro. Comecei idealizar o começo da história, algumas passagens, diálogos, visualizei algumas cenas, adorei todo o passo a passo na minha cabeça. Não conto nenhum detalhes porque realmente tenho esperança de escrevê-lo algum dia. Hoje, no entanto, não é este dia ainda. Espero chegar lá.

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Em nove meses, muitos acontecimentos e ações me ajudaram a melhorar. Eu não sei como contar todos os passos que eu dei desde que achei que não valia mais a pena a viver até agora. Atualmente, tenho pensando muito nas mudanças da minha vida em relação ao ano passado. Eu sei que comecei com o pensamento positivo “baby’s steps”, que ouvi no seriado “Happy Endings” e tomei como um mantra motivacional. A melhor tradução seria “em passos de formiguinha”, assim eu não teria que conseguir resolver tudo de uma vez, mas cada parte aos pouco até me sentir melhor para enfrentar as etapas mais difíceis.

Em vários momentos da minha trajetória, eu escolhi canções que me embalaram e ajudaram a me erguer ou a chorar bastante. Lembro de cada momento e cada música com carinho, apesar dos sentimentos contraditórios: “Anything Could Happen” (Ellie Goulding), “Just Give Me a Reason” (Pink e Nate Ruess), “I’m not The Only One” (Sam Smith) e “Worth It” (Fifth Harmony). Você pode escolher a sua, não importa a letra e o ritmo, é a gente que dá significado para elas. Atualmente, a minha música é “Can’t Help Falling in Love” (Haley Reinhart).

O que eu aprendi nesses últimos meses para me sentir bem novamente? Eu tentei absorver o máximo da experiência de outras pessoas através de livros, filmes, músicas, etc. Se permitir a fossa intensa é um processo de cura. Quando se perde o objetivo para vida, você se sente desestabilizado e sem motivação para nada. Os amigos ajudam, mas não são integralmente presentes. Eu, entretanto, sempre pude contar com a minha família. Por ela está sempre ali, a gente não valoriza o suficiente, não é mesmo? Por que filhos acreditam que o melhor lugar é longe dos pais e eles pensam exatamente o oposto?

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O grande dilema de aprender a se sentir feliz é saber lidar com a frustração diária. Sim. Nossas expectativas jamais serão alcançadas pela realidade e se, por um acaso, chegarmos a ela, apenas agradeça por esse momento: vivendo o intensa. Nos outros dias, busque a felicidade nas pequenas coisas, aqueles “pequenos passos” significam. Todos os meus momentos agora têm sentindo. Eu aprendi a significá-los, os livros, os filmes, as conversas, uma bebida, uma comida, o que escrevo, tudo tem um propósito dentro do meu plano de vida: me sentir bem.

Eu não preciso esperar por um momento, um acontecimento, eu posso provocá-los e me sentir feliz ou triste quando eu quiser. É difícil medir o que me puxou para cima, acredito que um convite inesperada para uma viagem de três dias com custo muito baixo ajudou bastante. Fugir da realidade que atormenta os pensamentos e conhecer pessoas novas são sempre um grande remédio. Ali, eu pude dar uma nova chance a mim mesma de tornar a vida interessante novamente. Há tantas pessoas no mundo para conhecermos, nos encantarmos e espantarmos. Por que evitá-las?

Comecei deixar as pessoas entrarem, sem receios, e falei sobre o que eu sentia com elas, mesmo sem a menor intimidade. Dancei, bebi, flertei, contemplei a natureza e me libertei dos padrões sociais. Aos poucos, as experiências novas ganhavam cada vez mais espaço, o receio do futuro indefinido foi se dissipando e a emoção pelo inesperado se tornou mais presente.

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Outra viagem, uma conquista e uma pessoa especial começaram a dar direção para os meus novos passos, mas eles apenas foram possíveis porque eu acreditei em percorrer novos caminhos. Olho para trás com doçura, mas sem lamentações sobre tudo que um dia desejei e tudo pelo o que chorei copiosamente. Hoje, novos planos estão na minha mesa, eu ainda choro, ainda tenho medo, mas nem por um minuto em penso que não vale a pena enfrentar a dor e os problemas.

O que te faz despertar? Lembre-se de um motivo pelo qual abrir os olhos todos os dias. Se você busca por algo, prepare o caminho até ele e não espere ele aparecer de surpresa. Esperar é o verbo mais cansativo da língua portuguesa. Busque sempre, corra atrás, não fique parado. Eu senti pena de mim por muito tempo para saber que o que realmente importa é como nos vemos diante do espelho todos os dias, pois o que vemos ali reflete nos outros ao redor. Acordei!

**Fotos da minha viagem por Curitiba, Lapa e Morretes/PR. 

Crônica #3 – Prelúdio da Depressão

Eu acordo. Olho para o celular, ainda é cedo. Não tenho nada planejado para hoje. Vou tomar banho. Coloco uma roupa confortável. Ligo o computador, na verdade, ele continua ligado da noite passada. Apenas saio da tela descanso. Leio os e-mails. Postagens no Facebook. Postagens no Twitter. Procuro emprego nos grupos de redes sociais. Envio um currículo. Isso já me alegra um pouco. Ainda que as chances sejam mínimas é uma esperança de acordar com um propósito todos os dias.

Escrevo alguns textos. Tenho ideia para outros. Nunca chego ao final de nenhum. Poderia escrever um livro com o tempo ao meu favor, no entanto, a vontade passa longe. Vejo vídeos no Youtube. Me distraio com matérias sobre política, economia, viagens, comportamento e comunicação. Tento me manter informada. Converso comigo mesma, claro, acreditando contar algo para outra pessoa imaginária.

O tempo passa. Eu vou até a cozinha. Esquento a comida já pronta e coloco no prato. Como pouquíssimo. Bebo suco de limão sem açúcar. Só volto a comer na hora do jantar. Já perdi seis quilos assim. Volto para o computador e assisto algum episódio de algum seriado entre as dezenas dos quais assisto. Prometo a mim mesma escrever um texto analítico sobre eles. Nunca o faço. Penso nas palavras para começar, mas se começo a digitar perco o foco. Mexo no celular. Vejo as atualizações do Facebook, Twitter, Instagram.

Tenho livros para ler, filmes para assistir e nenhuma vontade de fazê-los. Eu adoro escrever, sempre amei. Por outro lado, tudo parece vazio. Se ninguém me cobra ou me paga para isso, eu simplesmente desisto. Tenho sonhos. Idealizo-os em todos os momentos vagos. São eles que fazem a dor no peito afrouxar um pouco, às vezes.

Quero viajar. Não sei para onde. Não posso gastar dinheiro, porque quase não o ganho. Quero ter minha própria casa e morar perto de um café, onde eu possa descer para beber alguma coisa, enquanto eu leio um livro. Podia ir até a praça, mas prefiro ficar sob o ventilador do meu quarto, observando o mundo pela internet.

Sinto falta do estresse do trabalho. De reclamar da vida simplesmente por ter uma obrigação e receber por isso. Eu não tenho obrigação com nada e ninguém, portanto, sinto falta. As horas passam depressa e eu não faço planos. O máximo é se eu vou levantar cedo amanhã ou não. Tento distrair a mente olhando pela janela e pensando que o melhor ainda está por vir.

Devo acreditar nisso, mesmo não tendo a menor ideia se é verdade ou não. Quero acordar um dia e me sentir feliz. Não sei o que isso há algum tempo. Sorrio da porta do meu quarto para fora. Na rua, é impossível saber o que se passa por dentro. Em tese, eu tenho amigos, pessoa que se importam comigo, mas eu não as sinto assim. A prática exige muito mais que uma palavra.

O dia começa a chegar ao fim. Eu tiro as lentes e troco de roupa. Deito na cama e leio um livro até não aguentar mais segurá-lo. Desejo bons sonhos para mim mesma. Gosto de acreditar que eles respondem as minhas dúvidas. Eu acreditava em um tipo de vida que era bem diferente da minha atual. Nunca imaginei estar assim, aqui, agora, com esses sentimentos. Cada dia a mais uma porta se fecha e eu não encontro outra solução a não ser pular a janela. Eu não quero fazer isso.

Crônica#2 | O Fundo de Tela do Celular

Olho para foto de plano de fundo do meu celular. Ela me lembra que existe uma incerteza angustiante dentro de mim. A imagem me mostra que eu tinha uma pessoa a minha direita disposta a permanecer ali durante o click da câmera fotográfica e, talvez, por muito mais tempo além do que a fotografia poderia registrar. O sorriso forçado, no entanto, revela a antipatia pela gravação da imagem, de guardar a memória de algo bom, ou mais ou menos, para ser mais fácil quando deixá-lo.

Do outro lado, eu. As minhas mãos apoiadas no seu braço representavam a necessidade de segurá-lo, de mantê-lo ao meu lado, mesmo que a sua vontade fosse outra completamente diferente. Suas mãos penduradas diziam que ele não queria se agarrar a nada nesse mundo, nada que o acorrentasse em algum lugar. Ele já vivia acorrentado, com uma âncora dentro de si mesmo.

Eu abaixo, ele acima. A decisão da foto era minha. A aceitação foi dele. A conclusão é que, se um olhar diz mais do que mil palavras, uma imagem traduz toda uma verdade velada do nosso inconsciente, das nossas próprias mentiras. Cada sorriso forçado ao meu lado era uma felicidade inventada. Uma tristeza guardada até o ponto de explodir e atingir os que estão ao seu redor. Sorrisos falsos conseguem enganar por um tempo, mas não para sempre.

Deleto a imagem do fundo da tela. Coloco uma obra de arte pintada por um desconhecido para esconder o desespero do que querer mostrar ser, antes de realmente ser. A fotografia se tornou um troféu nos tempos atuais em vez de uma lembrança. Apago as incertezas e as interpretações pungentes, decido viver cada momento. A fotografia, afinal de contas, é apenas um segundo de uma longa caminhada. Pode significar algo ou nada.

Crônica #1 – Dor de Estômago

Eu gosto de café e mate,
meu estômago não gosta.

Algo nele rejeita, uma coisa chamada gastrite,
que quando crescer passará a ser nomeada úlcera.

Tenho vontade de enfiar a mão pela garganta
e arrancar o peso que comprimi meu estômago.

No entanto, tudo que eu faço é contorcer as mãos na manga do casaco
durante três horas no trânsito,
enquanto a dor, irremediável, lateja sem cessar.