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Resenha #14 – The Walking Dead: A Queda do Governador – Parte Um, Robert Kirkman

Dos HQs para televisão, videogames e livros, o sucesso da marca The Walking Dead é incontestável. O lançamento de A Ascensão do Governador, em 2012, foi uma novidade muito bem-vinda. Como descrevi na minha resenha, na época, Robert Kirkman e Jay Bonansinga conseguiram prender o leitor e trazer uma novidade para o universo já conhecido da série. Além disso, nos presenteou com uma história antes nunca contada, mas sem sair da sua trajetória.

Já no segundo, O Caminho para Woodbury (também resenhado aqui), caminhamos sob a perspectiva de Lilly Caul, protagonista da trama que percorre seu errante caminho neste mundo apocalíptico até chegar aos primórdios do que seria a cidade de Woodbury. Seus dilemas em viver naquelas comunidade e os perigos dentro e fora, com menos impacto que o primeiro, conseguem criar um clima de tensão e apresenta um final de rebelião e contenção.

A-Queda-do-Governador

O que poderíamos esperar do terceiro? Dividido em duas partes, A Queda do Governador (Galera Record, 2014, p. 265) desaponta por retratar a mesma história do HQ e do seriado, contudo, de uma maneira diferente. O início é apreensivo e ardiloso, no entanto, no decorrer da narrativa a história parece não alavancar. A personagem Lilly Caul ganha um enredo enfadonho e a gente encontra os conhecidos personagens Rick, Glenn e Michonne, mas sem nenhuma estrutura do seu passado. Eles apenas são “jogados” na trama em situações semelhantes às já desenvolvidas nas outras plataformas.

Diferente do seriado, que nos poupou de grande parte do lado perverso do Governado, o livro descreve com requinte de agonia a maneira a qual Philip aprisiona Michonne e a violenta inúmeras vezes. Acredito, entretanto, que está parte faça parte do HQ (vale ressaltar que não li). As partes de perigo iminente, as lutas com os walkers e o desalento humano continuam ótimas, mas o enredo perde o charme de novidade e apenas a história de Lilly continua inédia, em contrapartida, sem nenhum entusiasmo.

Coleção The Walking Dead

A narrativa se prolonga bastante na violência contra Michonne e sua vingança, já os walkers ficam em segundo plano e o livro parece se repetir apenas para prolongar a história, sem um objetivo determinado. A necessidade de uma parte dois se torna apenas uma opção caça-níquel, pois grandes pedaços deste livro poderiam ser abdicados e partir logo ao combate na prisão, que possivelmente é o enredo da sequência. Sobretudo, a modificação dos acontecimentos a cada plataforma afasta mais do que conquista os seguidores do projeto.

Portanto, A Queda do Governador parece um engodo lucrativo, acrescenta pouquíssimo à conhecida narrativa, torna os personagens simplórios e nos deixa constrangidos com o declínio de perspectivas para o desfecho. Volto a ressaltar que as descrições das cenas são ótimas, junto com a elevação da raiva e do lado mais abominável de Philip, entretanto, uma reapresentação do que já sabemos, sem nenhuma novidade, perde o critério da publicação. Isso porque, esta não é uma adaptação, mas um complemento. Lerei a segunda parte e espero que a personagem Lilly volte a se destacar e ser a protagonista da história, contudo, acho difícil por causa da trajetória ruim dada para ela neste volume.

Nota: 2/5,0.

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Lista #1 – Top 10 de Livros Lidos em 2014

Em 2014, eu li exatamente 30 livros dos mais diferenciados autores e gêneros. Queria escrever sobre o que achei de cada leitura, mas seria muito complicado depois algum tempo lembrar a peculiaridade de cada um, por isso, resolvi listar os que mais mexeram comigo, isto é, o meu Top 10 literário de 2014.

Apenas dois exemplares foram lançados no ano passado, já outros dois são do retrasado e um do anterior. Os outros cinco são leituras de outras épocas, mas totalmente atemporais, então, podemos dizer que esta lista é meio a meio contemporânea e clássica. Se tratando de literatura, acredito que devemos sempre balancear os dois. Em contagem regressiva, eis os selecionados:

  1. A Culpa é das Estrelas (John Green, 2012, p. 286)

A Culpa e das Estrelas

Por causa de todo o furor e os recordes de vendas, eu me interessei em saber o que este livro tinha de tão especial. Após ser o mais vendido no mundo editorial no ano passado, sua adaptação também foi o filme mais visto no Brasil em 2014. Se você ainda não sabe o motivo de milhares de pessoas lerem o livro ou correrem para o cinema, eu explico.

John Green misturou humor e lágrimas, além de brincar com a metalinguagem da recepção dos leitores sobre seu livro. Além disso, o tema “câncer” deixou de ser chato e corrosivo para abrir espaço de forma natural, de como viver com a doença, ao invés de esperar a morte. Assim, Hazel e Gus viraram personagens ícones de uma geração. É a primeira vez que vi uma história deste tipo não soar piegas e com mensagens de superação. Se divirta e se emocione de página em página.

  1. Amor Líquido (Zygmunt Bauman, 2004, p. 190)

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O sociólogo polonês Bauman faz uma análise das relações humanas cada vez mais frágeis no contexto social. Grande parte da obra é dedicada ao relacionamento amoroso e como o indivíduo está perdido sem saber lidar com o Outro e a tecnologia. Quando mais eu lia, mais eu percebia como o discurso social nos molda para além de uma vontade própria.

É difícil sair da bolha social. Logo de início, o autor nos explica que o “amor” pode ser comparado facilmente a uma transação financeira e, por isso, ficamos tão arrasados quando perdemos todo o nosso investimento na outra pessoa. Para ele, o afeto se tornou moeda da troca nas transações cotidianas. Apesar de escrito há 10 anos, a atualidade segue os mesmos preceitos. Ótimo para refletir sobre as posições dos sujeitos no mundo.

  1. Alta Fidelidade (Nick Hornby, 1995 p. 312)

Alta Fidelidade

Eternizado pelo filme com John Cusack e Jack Black, o romance é bem semelhante à película, o que me deixou fascinada pela ótima adaptação do roteiro. Claro que, como todo livro, tem muito mais recheio do que uma projeção de duas horas. As listas do protagonista são intermináveis, engraçadas e melancólicas. Comecei a fazer os meus próprios rankings mentalmente (como este!).

A narrativa de Hornby é poderosa, exatamente por dar voz a Rob, um personagem irresponsável e desapegado, exceto por sua melancolia, a qual ele é totalmente devoto (vide tantas memórias por meio de listas). Há uma reflexão sobre relacionamento e suas causalidades a partir dos 30, tudo bem longe do romance e mais próximo da praticidade da vida, o que faz o leitor amar ou odiar todos os personagens. Fico com a primeira opção.

  1. A Espinha Dorsal da Memória (Bráulio Tavares, 1989, p. 165)

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Lançado muito antes do gênero fantástico se tornar sensação nas prateleiras das livrarias, a publicação reúne excelentes contos lúdicos e metafóricos. Para a mim, sua linguagem é um verdadeiro quebra-cabeça transmitindo mensagens criptografas. Lembra bastante os contos de Malba Tahan, mas misturados aos cenários de Neil Gaiman.

Além dos contos, a obra é composta por uma história no final sobre os elementos dos primórdios da humanidade, ambientada no espaço. A última parte me remeteu ao livro A Arte da Guerra, só que galáctico. Eu adorei cada aventura e teve algumas que eu tive que reler para compreender o raciocínio fascinante do autor brasileiro.

  1. Dias Perfeitos (Raphael Montes, 2014 , p. 280)

Dias Perfeitos

Descrito por alguns críticos como o “Stephen King Brasileiro”, eu tive que conferir o que o escritor nacional de 24 anos tinha de tão maravilhoso em seu texto. Devo confessar que fiquei meio desapontada com a escrita super simples, mas a história realmente te envolve. Claro, pretendo ler o seu primeiro livro, Suicidas, em breve.

Com uma pitada de Norman Bates na veia e viagens pelo Rio de Janeiro, Raphael nos leva ao “romance” macabro de Téo, um solitário estudante de medicina, e Clarice, uma jovem de espírito livre. As aspas indicam que romance é apena um eufemismo para o vício doentio do rapaz pela moça, que o torna capaz de qualquer coisa, mesmo. Os acontecimentos nos deixam arrebatados, além de nos transformar em cúmplices de Téo. Isso tudo ao mesmo tempo em que tentamos decifrar a mente perturbada de ambos.

  1. O Oceano no Fim do Caminho (Neil Gaiman, 2013, p. 208)

O Oceano no Fim do Caminho

A fantasia vive na mente das crianças, depois de adultos perdemos o poder de ver as criaturas sobrenaturais ao nosso redor. É assim, mais ou menos, que começa a narrativa desta maravilhosa fábula, contada 40 anos após seus acontecimentos. O narrador relembra a grande aventura da sua infância em que ele descobriu o amor, os mistérios da vida e todo o oceano.

Isso tudo pode soar subjetivo demais, no entanto, só há um jeito de saborear as páginas desta obra: se deixando levar pela fantasia narrativa. É uma história de amadurecimento, mas de forma muito mais criativa e abstrata. Afinal, as lembranças de anos atrás podem ser fiadas como verdades ou é apenas um modo como nos apropriamos dos acontecimentos e o recontamos para vida? O discurso é simples, mas a percurso é delicioso.

  1. Risíveis Amores (Milan Kundera, 1987 [1970], p. 236)

Risiveis-Amores

Desde que li A Insustentável Leveza do Ser, devoro os livros de Kundera saboreando cada grão de sabedoria de seus peculiares núcleos narrativos.  Neste livro, o autor reúne sete contos profundos sobre relacionamentos amorosos, de forma que a aceleração das batidas de um coração pode ascender um estopim para a destruição de um quarteirão inteiro.

Em poucas páginas, Kundera constrói caminhos inimagináveis, mas totalmente palpáveis. O conto O Jogo da Carona é meu preferido, pois me desafiou a compreender a imprevisibilidade humana. Como de costume, sua ficção traz teorias filosóficas entranhadas, passo longos momentos me questionando sobre suas reflexões. Se quiser começar a lê-lo, esta obra é, com certeza, uma ótima porta de entrada.

  1. Fragmentos de um Discurso Amoroso (Roland Barthes, 2003 [1977], p. 343)

Fragmentos de um Discurso Amoroso

O filósofo francês constrói um dicionário explicativo por meio de verbetes que compreendem todas as noções do mito socrático e o mito romântico sobre o amor. Com recurso figurativo, ele remete passagens de obras da literatura, onde o amor era o seu ponto principal, como O Sofrimento do Jovem Werther, de Goethe, considerada a primeira obra do romantismo, e O Banquete, de Plantão, conhecido por apresentar as iniciais noções míticas do amor.

As palavras pinçadas, tais como Abraço, Coração, Escrever, Nuvens, Recordação, Ternura, Verdade, ganham desenvolvimentos associativos da vida do apaixonado e sofredor, passando por todas nuances do amor romântico. Como uma ideia construída socialmente, o amor apresenta facetas instigantes e um final fatídico para os mais aficionados.

  1. Fim (Fernanda Torres, 2013, p. 208)

Fim

Se você já conhece a irreverência de Fernanda Torres por suas atuações, pode apostar que o seu texto, ainda bem, está repleto dela. O Fim é narrado em primeira pessoa por um grupo de amigos sexagenário contanto suas aventuras e desventuras pela vida. Cada capítulo é a narração de Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto ou Ciro.

Conhecemos pelas beiras e por completo o que cada um pensa do outro e de que forma o fim chega para todos. Numa reflexão sobre a vida de um homem na terceira idade e o que eles esperam até a hora do último suspiro, a gente dá gargalhadas e concorda com toda filosofia de botequim ensinada pelos cinco. Até os personagens secundários ganham nossa atenção nessa gostosa leitura. Não há para quem eu não recomende.

  1. Garota Exemplar (Gillian Flynn, 2013, p. 448)

Garota Exemplar

Li este livro em apenas quatro dias. Resumindo, não consegui descolar dele até terminá-lo. Os capítulos intercalados narrados em primeira pessoa por Nick e Amy são fascinantes. Pois ouvimos um, logo em seguida o outro e não fazemos a menor ideia de quem está falando a verdade. Aliás, personagens podem mentir para os leitores?

Flynn mostra que pode, mas não de maneira tola. Amy é um personagem forte e muito racional (já é uma das minhas favoritas). Apesar da brilhante atuação de Rosamund Pike no cinema, o filme está bem aquém do livro. Infelizmente, a adaptação muda um pouco das motivações da personagem, enfraquecendo-a, mas tornando a história menos complexa para os expectadores. Por isso, talvez, não tenha sido indicado ao Oscar de Melhor Adaptação. Só digo isso: Leia!

Resenha#13 – Garota Exemplar, de Gillian Flynn

Ao escrever essa resenha desejo ressaltar logo de início que li Garota Exemplar em apenas quatro dias. O livro possui 446 páginas e eu trabalho, no entanto, todos os pequenos momentos de descanso eu o lia, porque fiquei totalmente imersa no mundo de Amy e Nick. Este é o poder de Garota Exemplar, conforme você lê mais você quer saber e descobrir como tudo aquilo aconteceu. Aquilo tudo é basicamente a sinopse do livro.

O enredo começa assim: na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados.

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Quanto mais a gente conhece Nick e Amy – em capítulo alternados narrados em primeira pessoa por ambos -, os questionamentos começam a surgir e a embaçarem. Nick parece estranhamente evasivo e despreocupado, seu casamento escondia dezenas de segredos, mas seria ele um assassino? O marido afirma inocência, entretanto, todas as pistas apontam para ele. Se Nick não matou Amy, onde ela está?

Nick narra o presente desde a manhã em que saiu de casa e foi para trabalhar no bar até receber a ligação de um vizinho intrometido. De acordo com a voz do outro lado do telefone, a sua porta estava escancarada e o gato parado na soleira. Ao entrar, Nick encontra móveis revirados e a ausência da sua esposa. Sem alteração nenhuma, Nick responde aos questionamentos da polícia, entretanto, ele mente na maioria das respostas. Ele conta uma versão e revela outra para o leitor, mas não diz qual é “a verdade”. Seu álibi para a hora do sumiço de Amy é escondido a sete chaves. Portanto, é melhor manter o pé atrás com Nick.

Já os capítulos de Amy são narrativas do passado, escritas no seu diário desde o primeiro encontro entre os dois até a véspera do acontecimento. Acompanhamos uma mulher amável, perfeccionista, frustrada, contudo, disposta a salvar seu casamento da indiferença e mudanças do marido. Percebemos quatro personagens em cada narrativa – a Amy do diário, a Amy apresentada por Nick, o Nick do diário e o Nick narrador dos acontecimentos do presente.

O que é real? O que é mentira? Além desse jogo de intrigas, a discussão persistente é sobre o casamento. O que faz um casamento ser duradora e feliz? O que faz uma pessoa continuar ao seu lado de maneira satisfatória ao longo dos anos? Essas questões foram as que mais mexeram comigo, pois a gente se pergunta e deseja o tempo todo numa relação amarosa que o outro sinta e deseja as mesmas coisas que a gente. Quase esquecemos, porém, que o sujeito pelo qual nos apaixonamos é apenas um indivíduo com desejos e vontades narcisísticas, como todos nós.

Quanto mais eu lia, mas me sentia envolvida pela discussão e o mistério. À primeira vista, Amy parece uma mulher fraca, mas resoluta, tentando colocar panos quentes nos problemas, enquanto Nick é um sujeito pouco expressivo e difícil de dialogar. A questão dos pais, o famoso Complexo de Édipo, está presente na relação familiar de ambos. Eles têm questões mal resolvidas com seus progenitores, problemas de certa forma levados para o lar conjugal e um dos motivos da corrosão do relacionamento.

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A construção da vida glamourosa até a decadência dos personagens são muito bem apresentados para nossa época. Nick era crítico de cinema de uma revista em Nova York, ao passo que Amy escrevia testes para revistas na mesma cidade. Os dois trabalhavam com veículos impressos, mas com difusão dos meios de comunicação na internet eles perderam o emprego. Os pais de Amy, entretanto, eram ricos e criaram a filha com tudo do bom e do melhor, além de lhe juntarem uma boa quantia. Sua fortuna era vinda da coleção de livros Amy Exemplar – o motivo da tradução do título em português -, que acompanhava a vida de uma menina dos seis aos 30 anos de idade, seguindo exatamente o crescimento da Amy real.

A personagem do livro era como um alter ego da filha idealizada pelos pais de Amy. Mais um ponto para Amy tratar em terapia. Da mesma forma, Nick possui um relacionamento raivoso com o pai, por seu desprezo familiar durante a adolescência dos filhos. A única pessoa que Nick confiava era a sua irmã gêmea Margot, a intimidade entre os dois era invejada por Amy, segundo o próprio Nick. Bem, com sutiliza e bastante criatividade,  a escritora Gillian Flynn molda narrativas diferentes para Nick e Amy,  nos prendendo nesse emaranhado de suposições  e reflexões.

O livro é dividido em três parte marcadas por reviravoltas impressionantes. Conforme a história prossegue, as narrativas continuam mostrando o ponto de vista de cada um. Durante toda a leitura, o suspense e a história são ótimos, entretanto, o que realmente acorrenta o leitor é essa possibilidade de saber a perspectiva de ambos para cada desenlace. É surpreendente perceber o quanto nos enganamos sobre o outro, mesmo conhecendo suas reações e defeitos. O ser humano consegue ser surpreendente e, por vezes, difícil de interpretar.

A mensagem mais forte aos meus olhos foi sobre o casamento ser uma atuação entre duas pessoas. Os sujeitos se conhecem, se apaixonam e começam a atuar para agradar o outro. Conforme a nossa atuação dá resultado continuamos a investir na performance, no entanto, um hora uma das partes se cansa e sai do papel. O problema é que o companheiro de palco não é avisado anteriormente sobre a mudança de cena e, se ele não souber improvisar, o script se dissolve.

A gente não ama o outro, nós amamos o imaginário do outro. É engraçado pensar como a gente escolhe uma pessoa e acredita que ela é o objeto da nossa felicidade, enquanto o outro não fez nada além de existir. A gente constrói todos os motivos para amar alguém de forma isolada, o outro apenas aceita ou não.

Esse jogo de papéis é muito bem moldado por Flynn. Acabei a leitura exausta. O livro é pura psicanálise sem nem mencionar a palavra. Há muitas outras questões envolvidas, como a influência e sensacionalismo da mídia, sem falar no trabalho raso da polícia, mas não vale destrinchar o livro e acabar com algumas surpresas. O final é arrebatador e condizente com toda a narrativa, não há brechas para frustrações.

Trechos:

Eu estava fingindo, como muitas vezes fazia, fingindo ter uma personalidade. Não consigo evitar, foi o que sempre fiz: assim como algumas mulheres trocam de estilo regularmente, eu troco de personalidade. Qual persona parece boa, qual é cobiçada, qual está em voga? Acho que a maioria das pessoas faz isso, apenas não admite, ou se acomoda em um persona porque é preguiçosa ou burra demais para mudar. (2013, p. 244)

Os americanos gostam do que é fácil, e é fácil gostar de mulheres grávidas – elas são como patinhos, coelhinhos ou cachorros. Ainda assim, me choca que essas paquidermes moralistas e encantadas consigo mesmas recebam um tratamento tão especial. Como se fosse muito difícil abrir as pernas e deixar um homem ejacular entre elas. (2013, p. 281)

Resenha #12: Fim, de Fernanda Torres

Todo mundo conhece Fernanda Torres como uma atriz versátil no cinema e na televisão, principalmente por seus personagens cômicos, como Vani, de Os Normais (2001-2003), e Fátima, de Tapas & Beijos (2011-2014), ambos seriados da Rede Globo. Além da arte de atuar, a filha de Fernanda Montenegro estreou no final do ano passado na literatura, com boa recepção de crítica e público. Seu primeiro romance Fim, da Companhia das Letras, figura há um tempo entre os mais vendidos do país. A euforia sobre o seu texto e a instigante sinopse me chamaram atenção para a obra.

Fim-FernandaTorres

O primeiro capítulo é fatal. Você se deixa envolver completamente pela narrativa em primeira pessoa do septuagenário Álvaro. Enquanto caminha do consultório médico para sua casa em Copacabana, ele relembra os anos de juventude, o casamento mal sucedido, os amigos de farra e a chegada da velhice. Seu peculiar ponto de vista e seus versos intimam o leitor a prosseguir pelos próximos capítulos e mergulhar em um universo de máximas filosóficas, consternações, lamúrias e, por fim, o predestinado último dia na Terra dos cinco amigos: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro. Com personalidades distintas e trajetórias interpeladas pelas ações do outro, eles definem suas vidas e seus propósitos de forma singular, tendo o Rio de Janeiro como pano de fundo de suas aventuras.

Eu nunca encarei a morte como uma possibilidade. Não que fosse apegado a nada de especial na vida, mas é que a morte não existe. A morte é uma doença crônica. (TORRES, Fim, 2013)

O tom confessional do livro, como um grande memorial de acontecimentos, acertos e dívidas, é o mais prazeroso da leitura. O capítulo de abertura apresenta os protagonistas dos seguintes. Cada um aparece na intercalada da vida do outro, assim observamos a mesma história ser contada sobre diversos aspecto, com graça e dinâmica. Os homens desfilam suas posições machistas, preconceituosas e zombam do falso moralismo atual e do domínio da tecnologia no cotidiano. Diversificando entre a primeira e terceira pessoa, a fala solta e desmedida é agradável pela naturalidade como tudo é exposto. Por outro lado, Fernanda esbanja vocábulos rebuscados, ou talvez designíos de outrora, mas que me fizeram recorrer ao dicionário algumas vezes, destaco “barbitúricos” e “convescote”, entre as dezenas.

Longe de dificultar a leitura, os vocábulos aguçam a descoberta por novas palavras, fugindo da nossa repetição diária. As ex-mulheres também têm voz no livro, até uma enfermeira ganha seu espaço. Elas são os pontos de ruptura da vida dos homens e relatam o desenvolvimento dos relacionamentos, dos primeiros meses até os anos de casamento, por fim, a insuportável convivência, a convalescência do sexo e a aceitação do iminente fim da vida. A essência de toda a história já está no título da obra. É exatamente o final de cada um dos personagens que o leitor persegue com sede e num misto de descoberta e frustração. A vida é uma grande decepção? Fernanda Torres passa longe dos encerramentos idílicos. De Álvaro a Ciro, todos os seus personagens são palpáveis, espelho de um imaginário real.

Adeus, garotas, era preciso avançar. Tentou as de vinte e nove, as de trinta e um, e dois, e três, todas complexas, chatas e exigentes. As virgens eram como ele, simplórias. Sonhavam em trepar com delicadeza, só. Existe algo melhor? (TORRES, Fim, 2013)

No final das contas, quais são os propósitos da vida? Álvaro casou, teve filhos, foi traído e vive para tomar conta da sua própria saúde. Ribeiro nunca quis povoar o mundo, mas descobriu no Viagra um motivo para permanecer vivo por tanto tempo. Nero seguiu uma vida modesta, com um bom emprego, os filhos e a esposa, até que a morte os separou. Sílvio encontrou refúgio nas drogas e prostitutas. Ciro conheceu o amor da sua vida, viveu anos de paixão e quando o sentimento saiu de cena, tudo desabou. A vida tem final feliz? Ou são momentos de felicidades percebidos somente quando eles já se foram?

Ao compor essa proeza literária, Fernanda estava inspirada com o seu humor ácido e sua filosofia cartesiana. É difícil passar ileso pelos personagens, sem fazer comparações ou refletir sobre o próprio futuro. Tão original e tão próximo de nós, Fim é um dos melhores livros que eu li este ano e, ouso exagerar, que já li de todos os tempos. Desejo relê-lo para pescar alguns pontos cegos. Se você não for capturado no primeiro capítulo, não adianta prosseguir, será uma leitura vazia para quem não entendeu a essência de uma obra sobre os intervalos da vida, do que se leva ou se deixa ao final.

Fragmentos dos discursos de Fim:

O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas, agora, que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas.

Faz um ano que me esforço, mas tudo parece artificial: sair, ir a um cinema, jantar. Não tenho mais com quem comentar as notícias, é como se os fatos não existissem. O sol nasce e morre numa sucessão de horas iguais.

Meu querido, o não sei é a fase mais exaustiva de qualquer desquite, o resto vem naturalmente.

Resenha #11: O Lado Bom da Vida, de Matthew Quick

Sempre que um filme muito comentado é advindo de uma adaptação literário, eu busco o livro de origem. As palavras escritas são sempre diferentes da movimentação dos personagens em cena, quando é narrado em primeiro pessoas então, as diferenças de impressões são gritantes. Não importa quanto é maravilhosa a atuação do protagonista, ler os pensamentos de uma pessoa não é a mesma coisa de vê-la em ação.

Com O Lado Bom da Vida foi exatamente assim. Depois de um filme superestimado pela crítica, é bom comtemplar um livro que passa longe do final hollywoodiano e investe bastante na dor e na questão da depressão de forma leve e humorada. O protagonista Pat Peoples acaba de sair uma instituição psiquiátrica, chamada por ele de “lugar ruim”. Acompanhamos a sua readaptação a vida social e a sua busca incessante pela volta da sua esposa Nick.

O texto segue um caminho de muitas repetições, mas o estilo faz parte da personalidade do narrador/protagonista. É o algo vindo da confusão mental que Pat atravessa ao voltar a morar com os pais. Aos 34 anos, Pat perdeu os últimos quatro de forma quase inconsciente, pois não soube lidar com um momento traumático e recalcou o acontecimento. De forma que, após o divórcio, ele só pensa em voltar a rever a esposa Nick e acabar com o “tempo separado”.

Podemos traçar um ótimo estudo de caso psicanalítico com o personagem, uma vez que o próprio autor Matthew Quick declarou que a obra lhe surgiu em um momento de forte angústia e depressão. Pat pode ser considerado seu alterego nessa jornada em busca de um sentido ou um desejo impossível de saciar. Na vida real, Quick conseguiu se tornar um escrito bem sucedido e saiu da melancolia. Já na literatura, o personagem percorre um árdua caminho para despertar a verdade e saber que seu objeto de desejo é impossível.

A escrita de Quick é leve e bem contemporânea, aliás, ele insere bastante de sua experiência como professor escolar nos personagens. Os livros que Pat ler ao voltar para casa são todos os exigidos aos alunos de Ensino Médio nos Estados Unidos, porque Nick era professora de Literatura. Essa parte de questionamento de Pat sobre como um jovem pode encarar ou interpretar as histórias é um dos ganchos bem engendrados da trama e tira o leitor da rotina metódica de exercícios, corrida e jogos do Eagles realizada pelo protagonista.

Gosto da sensação de felicidade descrita pelo personagem/narrador ao estar no meio da torcida do seu time. Esse sentimento de unidade múltipla realmente só pode ser experimentado quando milhares de pessoas se reúnem para torcer pelo mesmo objetivo: a vitória do seu clube de coração.

Essa paixão irracional por um brasão é emoção pura, a gente sofre, vibra, fica magoado, revoltado, coisas que só um torcedor de verdade pode entender.  Essa dimensão do livro é bem agradável de acompanhar, no entanto, também temos o lado do torcedor fanático, representado pelo pai de Pat.

O autor Matthew quick

É louco imaginar que as pessoas deixam todas as situações de seu vida e seu bom humor serem influenciados pelo resultado de um jogo. Isso, entretanto, é mais comum do que parece, se lá a sensação é football americano, com a Super Bowl e tudo mais, aqui é o futebol, sem bola na mão. Fazer parte de uma torcida é emocionante e como se durante aquela partida tudo que importa no mundo é fazer a bola passar entre os três bastões de ferro da trave.

Pat é um personagem inquieto e nervoso, sua inocência e paixão imensurável pela mulher, além de seu caminho pautado pela gentileza e generosidade, fazem com que o leitor se identifique com ele ou, ao menos, torça para o final feliz da filme da vida dele, assim como ele define sua jornada após o trauma. Todo leitor ou espectador aguarda ansiosamente o momento de redenção do protagonistas.

O autor da história, no entanto, deseja transmitir uma mensagem mais realista e deixa esse final em suspense. Sair de uma depressão causada por um grande abandono demora e é dolorosa, portanto, fiquei muito feliz que o Quick não estragou toda a sua narrativa colorindo a história com sentimentos bons e felizes, afinal a gente comente erros e devemos pagar por eles.

Quem viu o filme, meia-boca, tem que ler o livro, afinal é um mundo completamente diferente de abordagem. O final feliz hollywoodiano não faz parte dessa obra. Apreciei bastante a leitura, contudo, não consegui destacar nenhuma passagem que dissesse alguma coisa para mim. O teor reflexivo do livro  é mais focado em literatura do que no transtorno do paciente.