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Crônica #3 – Prelúdio da Depressão

Eu acordo. Olho para o celular, ainda é cedo. Não tenho nada planejado para hoje. Vou tomar banho. Coloco uma roupa confortável. Ligo o computador, na verdade, ele continua ligado da noite passada. Apenas saio da tela descanso. Leio os e-mails. Postagens no Facebook. Postagens no Twitter. Procuro emprego nos grupos de redes sociais. Envio um currículo. Isso já me alegra um pouco. Ainda que as chances sejam mínimas é uma esperança de acordar com um propósito todos os dias.

Escrevo alguns textos. Tenho ideia para outros. Nunca chego ao final de nenhum. Poderia escrever um livro com o tempo ao meu favor, no entanto, a vontade passa longe. Vejo vídeos no Youtube. Me distraio com matérias sobre política, economia, viagens, comportamento e comunicação. Tento me manter informada. Converso comigo mesma, claro, acreditando contar algo para outra pessoa imaginária.

O tempo passa. Eu vou até a cozinha. Esquento a comida já pronta e coloco no prato. Como pouquíssimo. Bebo suco de limão sem açúcar. Só volto a comer na hora do jantar. Já perdi seis quilos assim. Volto para o computador e assisto algum episódio de algum seriado entre as dezenas dos quais assisto. Prometo a mim mesma escrever um texto analítico sobre eles. Nunca o faço. Penso nas palavras para começar, mas se começo a digitar perco o foco. Mexo no celular. Vejo as atualizações do Facebook, Twitter, Instagram.

Tenho livros para ler, filmes para assistir e nenhuma vontade de fazê-los. Eu adoro escrever, sempre amei. Por outro lado, tudo parece vazio. Se ninguém me cobra ou me paga para isso, eu simplesmente desisto. Tenho sonhos. Idealizo-os em todos os momentos vagos. São eles que fazem a dor no peito afrouxar um pouco, às vezes.

Quero viajar. Não sei para onde. Não posso gastar dinheiro, porque quase não o ganho. Quero ter minha própria casa e morar perto de um café, onde eu possa descer para beber alguma coisa, enquanto eu leio um livro. Podia ir até a praça, mas prefiro ficar sob o ventilador do meu quarto, observando o mundo pela internet.

Sinto falta do estresse do trabalho. De reclamar da vida simplesmente por ter uma obrigação e receber por isso. Eu não tenho obrigação com nada e ninguém, portanto, sinto falta. As horas passam depressa e eu não faço planos. O máximo é se eu vou levantar cedo amanhã ou não. Tento distrair a mente olhando pela janela e pensando que o melhor ainda está por vir.

Devo acreditar nisso, mesmo não tendo a menor ideia se é verdade ou não. Quero acordar um dia e me sentir feliz. Não sei o que isso há algum tempo. Sorrio da porta do meu quarto para fora. Na rua, é impossível saber o que se passa por dentro. Em tese, eu tenho amigos, pessoa que se importam comigo, mas eu não as sinto assim. A prática exige muito mais que uma palavra.

O dia começa a chegar ao fim. Eu tiro as lentes e troco de roupa. Deito na cama e leio um livro até não aguentar mais segurá-lo. Desejo bons sonhos para mim mesma. Gosto de acreditar que eles respondem as minhas dúvidas. Eu acreditava em um tipo de vida que era bem diferente da minha atual. Nunca imaginei estar assim, aqui, agora, com esses sentimentos. Cada dia a mais uma porta se fecha e eu não encontro outra solução a não ser pular a janela. Eu não quero fazer isso.