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Crítica de Cinema – Ela

Ela é uma apunhalada no coração e na mente. É difícil se sentir indiferente a história cunhada pelo genial Spike Jonze. Conhecido por dirigir as criativas obras Quero Ser John Malkovick (1999) e Adaptação (2002), ambas escritas por Charlie Kaufman, o cineasta traz agora a realidade fantástica do companheiro de trabalho para seu próprio texto. Por meio de uma fábula futurística, Jonze fala de relacionamentos amorosos de forma intensa e angustiante.

O lado depressivo da obra, na verdade, é algo que expõe a real concepção humana. Ou seja, o nosso desejo insaciável pelo parceiro ideal e nossa constante sensação de falta. O teórico Jacques Lacan já dizia que o amor verdadeiro é algo inacessível, porque assim que o amado é conquistado, como um objeto desejado, ele deixa de ser a motivação de prazer e a busca continua, continua, continua.

A partir do solitário escritor Theodore (Joaquin Pheonix) nos envolvemos emocionalmente com a história. O trabalho do protagonista consiste em escrever cartas pessoais trocadas entre casais, familiares e amantes. Para seu serviço ser perfeito, ele utiliza fotos e detalhes da vida a dois, enviados pelo cliente. Assim, ele desenvolve belíssimos textos apaixonados e emocionantes. Com as palavras, ele é capaz de derreter um semblante duro sem ser piegas e, através de suas frases, percebermos que os momentos de prazer estão nos detalhes do cotidiano.

Como Theodore entra em contato com emoções amorosas todos os dias, ele sofre com as lembranças da ex-mulher Catherine (Rooney Mara). O relacionamento apaixonado e ideal que aos poucos foi desmoronando até não ser nada. Ao longo da trama, percebemos algumas nuances da história do antigo casal, mas aqui não há culpados para separação, ambos são réus num rompimento. As lembranças fazem com que o personagem se feche cada vez em um casulo cibernético de encontros em salas de bate-papo sem sentido.

É difícil encontrar alguém com o qual a gente de goste de conversar. A sensação de já ter encontrado e perdido é ainda mais avassaladora. Theodore se resigne a caminhar olhando para o passado até que surge em seu caminho um novo sistema operacional com inteligência artificial que se adapta às necessidades de cada pessoa. Assim, Theodore “conhece” Samantha (Scarlett Johansson). Uma voz digital que pensa, sente e questiona o mundo, no entanto, não possui uma expressão corpórea.

Quando mais Theodore conversa com Samantha, ele sente acolhido, compreendido e, pela primeira vez em tempos, feliz. Agora, existe alguém que deseja compartilhar as coisas banais do dia a dia com ele e, cada vez mais, Samantha se interroga por suas novas sensações. De repente, ela se confronta com a possibilidade de desejar, algo inimaginável por um sistema operacional programado. O sistema de Samantha se expande e o relacionamento entre os dois também.

Apesar da trama se concentrar nos avanços digitais e nos relacionamento virtuais, o protagonista conta com figuras importantes no seu cotidiano real, como a amiga Amy (Amy Adams) e o colega de trabalho Paul (Chris Platt). Eles são determinantes para a mudança do nível de relacionamento de Theodore e Samantha. Por fim, como qualquer relação, até com a figura projetada perfeitamente para você, existem conflitos.

Joaquin Pheonix é espetacular em cena, se levarmos em conta que a sua atuação em grande parte é solitária, apenas com diálogos e imaginação, é impensável não lhe conceder um indicação ao Oscar deste ano, mas aconteceu. A tristeza do protagonista é tão forte que por vezes, infelizmente, nos contagia amargamente. Spike Jonze entrega uma obra de primeira, mas é fácil querer se distanciar da carga negativa da história, uma vez que gera uma grande reflexão para os casais.