Arquivos do Blog

Crônica#4 | Sentimentos Desacomodados

O que te faz despertar? Esta pergunta eu faço a mim mesma todos os dias ao abrir os olhos e relembrar os resquícios dos meus últimos sonhos. Tenho o costume de interpretá-los e tentar decifrar o que eles representam no atual momento da minha vida. Após estudar psicanálise por dois anos, sei que o nosso inconsciente significa e essas mensagens em frações do segundo da minha memória são respostas aos meu pensamentos mais profundos. Profundos porque eu não os compartilho verbalmente com ninguém, o que não é nunca a melhor opção. Mas como pôr em palavras o que não conseguimos descrever mentalmente?

Semana passada durante meu almoço sozinha na cozinha do meu atual emprego, eu descobri um tema ótimo para escrever um livro. Comecei idealizar o começo da história, algumas passagens, diálogos, visualizei algumas cenas, adorei todo o passo a passo na minha cabeça. Não conto nenhum detalhes porque realmente tenho esperança de escrevê-lo algum dia. Hoje, no entanto, não é este dia ainda. Espero chegar lá.

i00183

Em nove meses, muitos acontecimentos e ações me ajudaram a melhorar. Eu não sei como contar todos os passos que eu dei desde que achei que não valia mais a pena a viver até agora. Atualmente, tenho pensando muito nas mudanças da minha vida em relação ao ano passado. Eu sei que comecei com o pensamento positivo “baby’s steps”, que ouvi no seriado “Happy Endings” e tomei como um mantra motivacional. A melhor tradução seria “em passos de formiguinha”, assim eu não teria que conseguir resolver tudo de uma vez, mas cada parte aos pouco até me sentir melhor para enfrentar as etapas mais difíceis.

Em vários momentos da minha trajetória, eu escolhi canções que me embalaram e ajudaram a me erguer ou a chorar bastante. Lembro de cada momento e cada música com carinho, apesar dos sentimentos contraditórios: “Anything Could Happen” (Ellie Goulding), “Just Give Me a Reason” (Pink e Nate Ruess), “I’m not The Only One” (Sam Smith) e “Worth It” (Fifth Harmony). Você pode escolher a sua, não importa a letra e o ritmo, é a gente que dá significado para elas. Atualmente, a minha música é “Can’t Help Falling in Love” (Haley Reinhart).

O que eu aprendi nesses últimos meses para me sentir bem novamente? Eu tentei absorver o máximo da experiência de outras pessoas através de livros, filmes, músicas, etc. Se permitir a fossa intensa é um processo de cura. Quando se perde o objetivo para vida, você se sente desestabilizado e sem motivação para nada. Os amigos ajudam, mas não são integralmente presentes. Eu, entretanto, sempre pude contar com a minha família. Por ela está sempre ali, a gente não valoriza o suficiente, não é mesmo? Por que filhos acreditam que o melhor lugar é longe dos pais e eles pensam exatamente o oposto?

DSCN0064

O grande dilema de aprender a se sentir feliz é saber lidar com a frustração diária. Sim. Nossas expectativas jamais serão alcançadas pela realidade e se, por um acaso, chegarmos a ela, apenas agradeça por esse momento: vivendo o intensa. Nos outros dias, busque a felicidade nas pequenas coisas, aqueles “pequenos passos” significam. Todos os meus momentos agora têm sentindo. Eu aprendi a significá-los, os livros, os filmes, as conversas, uma bebida, uma comida, o que escrevo, tudo tem um propósito dentro do meu plano de vida: me sentir bem.

Eu não preciso esperar por um momento, um acontecimento, eu posso provocá-los e me sentir feliz ou triste quando eu quiser. É difícil medir o que me puxou para cima, acredito que um convite inesperada para uma viagem de três dias com custo muito baixo ajudou bastante. Fugir da realidade que atormenta os pensamentos e conhecer pessoas novas são sempre um grande remédio. Ali, eu pude dar uma nova chance a mim mesma de tornar a vida interessante novamente. Há tantas pessoas no mundo para conhecermos, nos encantarmos e espantarmos. Por que evitá-las?

Comecei deixar as pessoas entrarem, sem receios, e falei sobre o que eu sentia com elas, mesmo sem a menor intimidade. Dancei, bebi, flertei, contemplei a natureza e me libertei dos padrões sociais. Aos poucos, as experiências novas ganhavam cada vez mais espaço, o receio do futuro indefinido foi se dissipando e a emoção pelo inesperado se tornou mais presente.

i00049

Outra viagem, uma conquista e uma pessoa especial começaram a dar direção para os meus novos passos, mas eles apenas foram possíveis porque eu acreditei em percorrer novos caminhos. Olho para trás com doçura, mas sem lamentações sobre tudo que um dia desejei e tudo pelo o que chorei copiosamente. Hoje, novos planos estão na minha mesa, eu ainda choro, ainda tenho medo, mas nem por um minuto em penso que não vale a pena enfrentar a dor e os problemas.

O que te faz despertar? Lembre-se de um motivo pelo qual abrir os olhos todos os dias. Se você busca por algo, prepare o caminho até ele e não espere ele aparecer de surpresa. Esperar é o verbo mais cansativo da língua portuguesa. Busque sempre, corra atrás, não fique parado. Eu senti pena de mim por muito tempo para saber que o que realmente importa é como nos vemos diante do espelho todos os dias, pois o que vemos ali reflete nos outros ao redor. Acordei!

**Fotos da minha viagem por Curitiba, Lapa e Morretes/PR. 

Resenha #9: Trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Há muito tempo um livro não conseguia dominar meus pensamentos e me fazer varar a madrugada ansiosa por cada página. Só essa característica já faz de todo os livros da trilogia Jogos Vorazes um das melhores obras da literatura atual. Passei cinco dias totalmente imersa no mundo de Panem e os 13 Distritos, acompanhando a narrativa em primeira pessoa de Katniss Everdeen. Suzana Collins podia ter contato essa história de variadas formas, mas o tom confessional e humano da protagonista é de fato o que conquista os leitores, tudo se torna muito mais real na nossa imaginação e ajuda a compreender melhor os acontecimentos.

Confesso que no início eu tinha um pouco de preconceito. Achava que era um livro infanto-juvenil com uma premissa copiada de um filme japonês. Me enganei. A história é incrível. O filme lançado em 2012 não consegue transmitir metade da emoção do livro, portanto, se você só viu o filme pode se surpreender positivamente, como eu, com a história no papel. Considerada como literatura para young adults nos Estado Unidos, o romance pode despertar o interesse de qualquer pessoa que gosta de debater sobre conflitos sociais e políticos, claro, sem deixar de lado a ação e a emoção.

 livro-jogosvorazes-1

O primeiro livro Jogos Vorazes (p. 400) apresenta o mundo a partir de um futuro distante em que a América do Norte ruiu e surgiu um nova nação chama Panem (pão em latim). Formada por 12 distritos, a nação é comanda com mão de ferro pela Capital. A forma de demonstrar seu poder perante o resto do país é a realização dos Jogos Vorazes, uma competição anual televisionada em que uma menino e uma menina, entre 12 e 18 anos, de cada distrito são sorteados como tributos. Em um arena mortal, todos devem matar uns aos outros até restar apenas um vencedor. A narradora Katniss assume o lugar da sua irmã Prim, selecionada pela colheita dos tributos, junto com ela é selecionado Peeta, filho do padeiro da região, mas que de forma indireta a ajudou no passado.

Assim, a história segue toda a preparação de Katniss e Peeta para os Jogos, seus sentimentos e, principalmente, o estranhamento com a vida abastarda e fútil dos moradores da Capital. Durante os dias de preparação, Katniss conhece cada vez mais Peeta e se recente em ter que matá-lo em breve, no entanto, o livro nos prepara várias surpresas e passagens cheias de emoção. Katniss fica em dúvida sobre as intenções de Peeta, uma vez que ele se declara apaixonado por ela antes dos Jogos, e como esse fator pode ajudá-la na competição. Por fim, o romance entre os dois acaba sendo uma saída para se manterem vivos. Mas o que era real e o quer era encenação?

Ao final dos Jogos, Katniss toma uma iniciativa incalculável. Sua atitude de desafio e rebeldia perante a Capital desencadeia movimentos imagináveis. A guerra na arena acaba, mas começa uma caçada na vida real. Essa é deixa para a trama do segundo livro Em Chamas (p. 416). É clara a inspiração de Suzane Collins no filme Batalha Real (2000), mas também noto uma forte ligação da história com a narrativa de George Orwell em 1984. Afinal de contas, a Capital funciona com o Grande Irmão de olho em tudo e todos de seu interesse, desobedecê-la acarreta muitos problemas para o causador da desordem.

Quando Katniss desafia o poder vigente, ao tentar se matar junto com Peeta, ela gera um estado de rebelião em alguns distritos há tempos insatisfeitos com a submissão à Capital. No entanto, o mesmo cenário já aconteceu anos atrás o que se sucedeu aos Dias Negros e a criação dos Jogos Vorazes. Em pleno incursão de uma revolução, Em Chamas aprofunda muito mais o lado político da história, mas evidencia a fragilidade e imaturidade da jovem protagonista prestes a cumprir um papel com o qual não se sente preparada, além de estar confusa com seus sentimentos.

 Ganhar os Jogos Vorazes a faz ser subjugada pelas vontades da Capital para sempre ou encontrar uma saída mais fácil, a morte. Com ameaças pessoais do presidente Snow, Katniss se vê de novo presa na arena da morte, só que agora seu objetivo é salvar Peeta. Com a maior participação de Gale e a inserção de outros personagens interessantes, como Finnick e Johanna, a autora nos prepara reviravoltas e surpresas. Apesar do final do livro acontecer de supetão, com muitas passagens confusas, corremos para começar a próxima e última fase da saga: Esperança (p. 424).

Após sobreviver duas vezes aos Jogos Vorazes, Katniss está enfraquecida, no entanto, ao descobrir que seu distrito foi arrasado, ela decide enfrentar a Capital com tudo que lhe resta. Além disso, o lendário Distrito 13 realmente existe e toda a pequena população de sobreviventes deseja organizar uma resistência ao poder. Entretanto, eles precisam de Katniss para influenciar todos os outros distritos a se unirem para derrubar a Capital. Separada de Peeta e contra a própria vontade, ela assume o seu lugar como símbolo da causa rebelde, o Tordo (Mockingjay). Nessa última parte, Katniss passa muito tempo no hospital por diversos motivos, ela é atacada frequentemente, mas nunca deixa a peteca cair.

suzanne_collins

A sensação de guerra, massacre e muito sangue derramado fica evidente neste livro. O testemunho da narradora é claro e assustador sobre as circunstâncias que a cerca. Katniss se conforma que é impossível fazer revolução sem mortes, por isso, deixa um rastro de sangue para alcançar o seu objetivo: matar o presidente Snow. No meio de todo esse confronto, ela tem que lidar com um Peeta perigoso e desmemoriado pela Capital e os caprichos da presidente do Distrito 13, Alma Coin. O livro é morno no início, mas começa a soltar faíscas no meio, e lá pelos 60% da história tudo pega fogo. A partir daí, dificilmente você vai conseguir parar antes do fim.

As coisas chegam a um penhasco tão grande, que vislumbramos a impossibilidade de um final feliz para a protagonista. Mas, então, Suzane Collins amarra direitinho uma retirada e um final exemplar para satisfazer os leitores e tornam toda a história crível, válida e edificante para cada um de nós, membros de uma sociedade cada dia mais fragmentada. Suzane não deixa de alfinetar os poderes executivo, jurídico e nem o legislativo.

Pode passar despercebido em um primeiro momento, mas os livros  são um misto de pensamentos sobre formação política e a realização de uma sociedade justa. Por meio do ponto de vista da personagem Katniss Everdeen, a trilogia estimula os jovens a pensarem sobre política de forma criativa e visionária.

Spoiler! Se você não leu o último livro é melhor não ler essa parte. Mas, eu amei a descrição do final e ficou martelando na minha cabeça. Li e reli por diversas vezes e, portanto, resolvi reproduzi-la.

Acordo de pesadelos com bestantes e crianças perdidas. Mas seus braços estão lá para me consolar. E por fim, sua boca. Na noite em que sinto aquela coisa novamente, a ânsia que tomou conta de mim na praia, sei que isso teria acontecido de um jeito ou de outro. Que aquilo de que necessito para sobreviver não é o fogo (…), acesso com raiva e ódio. Eu mesma tenho fogo suficiente. Necessito é do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição. Da promessa de que a vida pode prosseguir, independentemente do quão insuportáveis foram as nossas perdas. Que ela pode voltar a ser boa. E somente (…) pode me dar isso.

Então, depois, quando ele sussurra:

– Você me ama. Verdadeiro ou falso?

Eu digo a ele:

– Verdadeiro.