Resenha #11: O Lado Bom da Vida, de Matthew Quick

Sempre que um filme muito comentado é advindo de uma adaptação literário, eu busco o livro de origem. As palavras escritas são sempre diferentes da movimentação dos personagens em cena, quando é narrado em primeiro pessoas então, as diferenças de impressões são gritantes. Não importa quanto é maravilhosa a atuação do protagonista, ler os pensamentos de uma pessoa não é a mesma coisa de vê-la em ação.

Com O Lado Bom da Vida foi exatamente assim. Depois de um filme superestimado pela crítica, é bom comtemplar um livro que passa longe do final hollywoodiano e investe bastante na dor e na questão da depressão de forma leve e humorada. O protagonista Pat Peoples acaba de sair uma instituição psiquiátrica, chamada por ele de “lugar ruim”. Acompanhamos a sua readaptação a vida social e a sua busca incessante pela volta da sua esposa Nick.

O texto segue um caminho de muitas repetições, mas o estilo faz parte da personalidade do narrador/protagonista. É o algo vindo da confusão mental que Pat atravessa ao voltar a morar com os pais. Aos 34 anos, Pat perdeu os últimos quatro de forma quase inconsciente, pois não soube lidar com um momento traumático e recalcou o acontecimento. De forma que, após o divórcio, ele só pensa em voltar a rever a esposa Nick e acabar com o “tempo separado”.

Podemos traçar um ótimo estudo de caso psicanalítico com o personagem, uma vez que o próprio autor Matthew Quick declarou que a obra lhe surgiu em um momento de forte angústia e depressão. Pat pode ser considerado seu alterego nessa jornada em busca de um sentido ou um desejo impossível de saciar. Na vida real, Quick conseguiu se tornar um escrito bem sucedido e saiu da melancolia. Já na literatura, o personagem percorre um árdua caminho para despertar a verdade e saber que seu objeto de desejo é impossível.

A escrita de Quick é leve e bem contemporânea, aliás, ele insere bastante de sua experiência como professor escolar nos personagens. Os livros que Pat ler ao voltar para casa são todos os exigidos aos alunos de Ensino Médio nos Estados Unidos, porque Nick era professora de Literatura. Essa parte de questionamento de Pat sobre como um jovem pode encarar ou interpretar as histórias é um dos ganchos bem engendrados da trama e tira o leitor da rotina metódica de exercícios, corrida e jogos do Eagles realizada pelo protagonista.

Gosto da sensação de felicidade descrita pelo personagem/narrador ao estar no meio da torcida do seu time. Esse sentimento de unidade múltipla realmente só pode ser experimentado quando milhares de pessoas se reúnem para torcer pelo mesmo objetivo: a vitória do seu clube de coração.

Essa paixão irracional por um brasão é emoção pura, a gente sofre, vibra, fica magoado, revoltado, coisas que só um torcedor de verdade pode entender.  Essa dimensão do livro é bem agradável de acompanhar, no entanto, também temos o lado do torcedor fanático, representado pelo pai de Pat.

O autor Matthew quick

É louco imaginar que as pessoas deixam todas as situações de seu vida e seu bom humor serem influenciados pelo resultado de um jogo. Isso, entretanto, é mais comum do que parece, se lá a sensação é football americano, com a Super Bowl e tudo mais, aqui é o futebol, sem bola na mão. Fazer parte de uma torcida é emocionante e como se durante aquela partida tudo que importa no mundo é fazer a bola passar entre os três bastões de ferro da trave.

Pat é um personagem inquieto e nervoso, sua inocência e paixão imensurável pela mulher, além de seu caminho pautado pela gentileza e generosidade, fazem com que o leitor se identifique com ele ou, ao menos, torça para o final feliz da filme da vida dele, assim como ele define sua jornada após o trauma. Todo leitor ou espectador aguarda ansiosamente o momento de redenção do protagonistas.

O autor da história, no entanto, deseja transmitir uma mensagem mais realista e deixa esse final em suspense. Sair de uma depressão causada por um grande abandono demora e é dolorosa, portanto, fiquei muito feliz que o Quick não estragou toda a sua narrativa colorindo a história com sentimentos bons e felizes, afinal a gente comente erros e devemos pagar por eles.

Quem viu o filme, meia-boca, tem que ler o livro, afinal é um mundo completamente diferente de abordagem. O final feliz hollywoodiano não faz parte dessa obra. Apreciei bastante a leitura, contudo, não consegui destacar nenhuma passagem que dissesse alguma coisa para mim. O teor reflexivo do livro  é mais focado em literatura do que no transtorno do paciente.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 18/02/2014, em Literatura e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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