Resenha #12: Fim, de Fernanda Torres

Todo mundo conhece Fernanda Torres como uma atriz versátil no cinema e na televisão, principalmente por seus personagens cômicos, como Vani, de Os Normais (2001-2003), e Fátima, de Tapas & Beijos (2011-2014), ambos seriados da Rede Globo. Além da arte de atuar, a filha de Fernanda Montenegro estreou no final do ano passado na literatura, com boa recepção de crítica e público. Seu primeiro romance Fim, da Companhia das Letras, figura há um tempo entre os mais vendidos do país. A euforia sobre o seu texto e a instigante sinopse me chamaram atenção para a obra.

Fim-FernandaTorres

O primeiro capítulo é fatal. Você se deixa envolver completamente pela narrativa em primeira pessoa do septuagenário Álvaro. Enquanto caminha do consultório médico para sua casa em Copacabana, ele relembra os anos de juventude, o casamento mal sucedido, os amigos de farra e a chegada da velhice. Seu peculiar ponto de vista e seus versos intimam o leitor a prosseguir pelos próximos capítulos e mergulhar em um universo de máximas filosóficas, consternações, lamúrias e, por fim, o predestinado último dia na Terra dos cinco amigos: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro. Com personalidades distintas e trajetórias interpeladas pelas ações do outro, eles definem suas vidas e seus propósitos de forma singular, tendo o Rio de Janeiro como pano de fundo de suas aventuras.

Eu nunca encarei a morte como uma possibilidade. Não que fosse apegado a nada de especial na vida, mas é que a morte não existe. A morte é uma doença crônica. (TORRES, Fim, 2013)

O tom confessional do livro, como um grande memorial de acontecimentos, acertos e dívidas, é o mais prazeroso da leitura. O capítulo de abertura apresenta os protagonistas dos seguintes. Cada um aparece na intercalada da vida do outro, assim observamos a mesma história ser contada sobre diversos aspecto, com graça e dinâmica. Os homens desfilam suas posições machistas, preconceituosas e zombam do falso moralismo atual e do domínio da tecnologia no cotidiano. Diversificando entre a primeira e terceira pessoa, a fala solta e desmedida é agradável pela naturalidade como tudo é exposto. Por outro lado, Fernanda esbanja vocábulos rebuscados, ou talvez designíos de outrora, mas que me fizeram recorrer ao dicionário algumas vezes, destaco “barbitúricos” e “convescote”, entre as dezenas.

Longe de dificultar a leitura, os vocábulos aguçam a descoberta por novas palavras, fugindo da nossa repetição diária. As ex-mulheres também têm voz no livro, até uma enfermeira ganha seu espaço. Elas são os pontos de ruptura da vida dos homens e relatam o desenvolvimento dos relacionamentos, dos primeiros meses até os anos de casamento, por fim, a insuportável convivência, a convalescência do sexo e a aceitação do iminente fim da vida. A essência de toda a história já está no título da obra. É exatamente o final de cada um dos personagens que o leitor persegue com sede e num misto de descoberta e frustração. A vida é uma grande decepção? Fernanda Torres passa longe dos encerramentos idílicos. De Álvaro a Ciro, todos os seus personagens são palpáveis, espelho de um imaginário real.

Adeus, garotas, era preciso avançar. Tentou as de vinte e nove, as de trinta e um, e dois, e três, todas complexas, chatas e exigentes. As virgens eram como ele, simplórias. Sonhavam em trepar com delicadeza, só. Existe algo melhor? (TORRES, Fim, 2013)

No final das contas, quais são os propósitos da vida? Álvaro casou, teve filhos, foi traído e vive para tomar conta da sua própria saúde. Ribeiro nunca quis povoar o mundo, mas descobriu no Viagra um motivo para permanecer vivo por tanto tempo. Nero seguiu uma vida modesta, com um bom emprego, os filhos e a esposa, até que a morte os separou. Sílvio encontrou refúgio nas drogas e prostitutas. Ciro conheceu o amor da sua vida, viveu anos de paixão e quando o sentimento saiu de cena, tudo desabou. A vida tem final feliz? Ou são momentos de felicidades percebidos somente quando eles já se foram?

Ao compor essa proeza literária, Fernanda estava inspirada com o seu humor ácido e sua filosofia cartesiana. É difícil passar ileso pelos personagens, sem fazer comparações ou refletir sobre o próprio futuro. Tão original e tão próximo de nós, Fim é um dos melhores livros que eu li este ano e, ouso exagerar, que já li de todos os tempos. Desejo relê-lo para pescar alguns pontos cegos. Se você não for capturado no primeiro capítulo, não adianta prosseguir, será uma leitura vazia para quem não entendeu a essência de uma obra sobre os intervalos da vida, do que se leva ou se deixa ao final.

Fragmentos dos discursos de Fim:

O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas, agora, que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas.

Faz um ano que me esforço, mas tudo parece artificial: sair, ir a um cinema, jantar. Não tenho mais com quem comentar as notícias, é como se os fatos não existissem. O sol nasce e morre numa sucessão de horas iguais.

Meu querido, o não sei é a fase mais exaustiva de qualquer desquite, o resto vem naturalmente.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 16/06/2014, em Literatura e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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