Resenha #9: Trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Há muito tempo um livro não conseguia dominar meus pensamentos e me fazer varar a madrugada ansiosa por cada página. Só essa característica já faz de todo os livros da trilogia Jogos Vorazes um das melhores obras da literatura atual. Passei cinco dias totalmente imersa no mundo de Panem e os 13 Distritos, acompanhando a narrativa em primeira pessoa de Katniss Everdeen. Suzana Collins podia ter contato essa história de variadas formas, mas o tom confessional e humano da protagonista é de fato o que conquista os leitores, tudo se torna muito mais real na nossa imaginação e ajuda a compreender melhor os acontecimentos.

Confesso que no início eu tinha um pouco de preconceito. Achava que era um livro infanto-juvenil com uma premissa copiada de um filme japonês. Me enganei. A história é incrível. O filme lançado em 2012 não consegue transmitir metade da emoção do livro, portanto, se você só viu o filme pode se surpreender positivamente, como eu, com a história no papel. Considerada como literatura para young adults nos Estado Unidos, o romance pode despertar o interesse de qualquer pessoa que gosta de debater sobre conflitos sociais e políticos, claro, sem deixar de lado a ação e a emoção.

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O primeiro livro Jogos Vorazes (p. 400) apresenta o mundo a partir de um futuro distante em que a América do Norte ruiu e surgiu um nova nação chama Panem (pão em latim). Formada por 12 distritos, a nação é comanda com mão de ferro pela Capital. A forma de demonstrar seu poder perante o resto do país é a realização dos Jogos Vorazes, uma competição anual televisionada em que uma menino e uma menina, entre 12 e 18 anos, de cada distrito são sorteados como tributos. Em um arena mortal, todos devem matar uns aos outros até restar apenas um vencedor. A narradora Katniss assume o lugar da sua irmã Prim, selecionada pela colheita dos tributos, junto com ela é selecionado Peeta, filho do padeiro da região, mas que de forma indireta a ajudou no passado.

Assim, a história segue toda a preparação de Katniss e Peeta para os Jogos, seus sentimentos e, principalmente, o estranhamento com a vida abastarda e fútil dos moradores da Capital. Durante os dias de preparação, Katniss conhece cada vez mais Peeta e se recente em ter que matá-lo em breve, no entanto, o livro nos prepara várias surpresas e passagens cheias de emoção. Katniss fica em dúvida sobre as intenções de Peeta, uma vez que ele se declara apaixonado por ela antes dos Jogos, e como esse fator pode ajudá-la na competição. Por fim, o romance entre os dois acaba sendo uma saída para se manterem vivos. Mas o que era real e o quer era encenação?

Ao final dos Jogos, Katniss toma uma iniciativa incalculável. Sua atitude de desafio e rebeldia perante a Capital desencadeia movimentos imagináveis. A guerra na arena acaba, mas começa uma caçada na vida real. Essa é deixa para a trama do segundo livro Em Chamas (p. 416). É clara a inspiração de Suzane Collins no filme Batalha Real (2000), mas também noto uma forte ligação da história com a narrativa de George Orwell em 1984. Afinal de contas, a Capital funciona com o Grande Irmão de olho em tudo e todos de seu interesse, desobedecê-la acarreta muitos problemas para o causador da desordem.

Quando Katniss desafia o poder vigente, ao tentar se matar junto com Peeta, ela gera um estado de rebelião em alguns distritos há tempos insatisfeitos com a submissão à Capital. No entanto, o mesmo cenário já aconteceu anos atrás o que se sucedeu aos Dias Negros e a criação dos Jogos Vorazes. Em pleno incursão de uma revolução, Em Chamas aprofunda muito mais o lado político da história, mas evidencia a fragilidade e imaturidade da jovem protagonista prestes a cumprir um papel com o qual não se sente preparada, além de estar confusa com seus sentimentos.

 Ganhar os Jogos Vorazes a faz ser subjugada pelas vontades da Capital para sempre ou encontrar uma saída mais fácil, a morte. Com ameaças pessoais do presidente Snow, Katniss se vê de novo presa na arena da morte, só que agora seu objetivo é salvar Peeta. Com a maior participação de Gale e a inserção de outros personagens interessantes, como Finnick e Johanna, a autora nos prepara reviravoltas e surpresas. Apesar do final do livro acontecer de supetão, com muitas passagens confusas, corremos para começar a próxima e última fase da saga: Esperança (p. 424).

Após sobreviver duas vezes aos Jogos Vorazes, Katniss está enfraquecida, no entanto, ao descobrir que seu distrito foi arrasado, ela decide enfrentar a Capital com tudo que lhe resta. Além disso, o lendário Distrito 13 realmente existe e toda a pequena população de sobreviventes deseja organizar uma resistência ao poder. Entretanto, eles precisam de Katniss para influenciar todos os outros distritos a se unirem para derrubar a Capital. Separada de Peeta e contra a própria vontade, ela assume o seu lugar como símbolo da causa rebelde, o Tordo (Mockingjay). Nessa última parte, Katniss passa muito tempo no hospital por diversos motivos, ela é atacada frequentemente, mas nunca deixa a peteca cair.

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A sensação de guerra, massacre e muito sangue derramado fica evidente neste livro. O testemunho da narradora é claro e assustador sobre as circunstâncias que a cerca. Katniss se conforma que é impossível fazer revolução sem mortes, por isso, deixa um rastro de sangue para alcançar o seu objetivo: matar o presidente Snow. No meio de todo esse confronto, ela tem que lidar com um Peeta perigoso e desmemoriado pela Capital e os caprichos da presidente do Distrito 13, Alma Coin. O livro é morno no início, mas começa a soltar faíscas no meio, e lá pelos 60% da história tudo pega fogo. A partir daí, dificilmente você vai conseguir parar antes do fim.

As coisas chegam a um penhasco tão grande, que vislumbramos a impossibilidade de um final feliz para a protagonista. Mas, então, Suzane Collins amarra direitinho uma retirada e um final exemplar para satisfazer os leitores e tornam toda a história crível, válida e edificante para cada um de nós, membros de uma sociedade cada dia mais fragmentada. Suzane não deixa de alfinetar os poderes executivo, jurídico e nem o legislativo.

Pode passar despercebido em um primeiro momento, mas os livros  são um misto de pensamentos sobre formação política e a realização de uma sociedade justa. Por meio do ponto de vista da personagem Katniss Everdeen, a trilogia estimula os jovens a pensarem sobre política de forma criativa e visionária.

Spoiler! Se você não leu o último livro é melhor não ler essa parte. Mas, eu amei a descrição do final e ficou martelando na minha cabeça. Li e reli por diversas vezes e, portanto, resolvi reproduzi-la.

Acordo de pesadelos com bestantes e crianças perdidas. Mas seus braços estão lá para me consolar. E por fim, sua boca. Na noite em que sinto aquela coisa novamente, a ânsia que tomou conta de mim na praia, sei que isso teria acontecido de um jeito ou de outro. Que aquilo de que necessito para sobreviver não é o fogo (…), acesso com raiva e ódio. Eu mesma tenho fogo suficiente. Necessito é do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição. Da promessa de que a vida pode prosseguir, independentemente do quão insuportáveis foram as nossas perdas. Que ela pode voltar a ser boa. E somente (…) pode me dar isso.

Então, depois, quando ele sussurra:

– Você me ama. Verdadeiro ou falso?

Eu digo a ele:

– Verdadeiro.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 04/11/2013, em Literatura e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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