Uma História de Amor e Fúria conta a verdadeira face do Brasil

Filme de animação nacional? Antes de torcer o rosto para uma vertente pouco explorada no cinema brasileiro, dê uma chance a Uma História de Amor e Fúria. Com traços bem desenhados – algo quase esquecido no meio das animações computadorizadas –, o filme de Luiz Bolognesi apresenta a evolução do Brasil pelo ponto de vista do oprimido.

Além da perspectiva didática da história do país, o longa também consegue ser poético, dinâmico e reflexivo. O formato da animação se encaixa como uma luva para o espectador entrar no mundo de alegoria do filme. O protagonista homem/pássaro (Selton Mello) passa por diversos momentos da construção da identidade brasileira, desde a chegada dos portugueses à costa do país até o futuro em 2096.

Para cumprir a missão de guiar seu povo pelo caminho correto, o herói recebe um dom de poder voar, no entanto, ele apenas poderá alçar aos céus, como homem, quando cumprir sua tarefa. Seu primeiro desafio é desencorajar o líder da tribo dos índios Tupinambás a enfrentar os rivais Tupiniquins, que apoiavam os colonizadores. Assim, ele conta como as tribos indígenas foram dizimadas pelos estrangeiros.

Cada vez que o personagem é morto, ele se transforma em pássaro e vaga pelo mundo até reencontrar a sua amada Janaína (Camila Pitanga), que lhe dá a condição se tornar homem novamente. Por meio dessa fábula de amor e luta, o espectador se depara com aspectos da história do país esquecidos pelos livros escolares e percebe como uma sociedade pode calar diversos fatos e manipular uma memória social.

O que é registrado sobre o desenvolvimento da nossa sociedade é apenas aquilo que é de interesse do poder vigente, representado em determinados momento pelos colonizadores, o império português, a ditadura militar, a polícia federal e os milicianos. Cada época do Brasil teve um povo oprimido, pobre e guerreiro, mas massacrado pelo poder. O protagonista lamenta que sempre que entra numa luta, ele está ao lado dos mais fracos.

As reflexões sobre como cada situação de guerra – como a revolta dos Balaios e a Golpe Militar – influenciaram na construção das nossas mazelas sociais. O primeiro resultou no cangaço e o segundo, nas favelas. Desse modo, o espectador acompanha uma história de amor que atravessa o tempo, além de compreender mais sobre a política e as relações de poder sociais.

Luiz Bolognesi fez um ótimo trabalho de narrativa e diálogo, por isso, os traços simples da animação ficam em segundo plano. As dublagens de Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro estão muito boas e seus personagens são tão envolventes, que ninguém repara que já conhece aquelas vozes de outros lugares.

A parte final do filme sobre o futuro é tão bem costurada com a nossa realidade, que chega a incomodar, pois facilmente poderíamos vislumbrar o suposto futuro como uma verdade prestes a acontecer. Como o personagem diz: “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro”. Uma História de Amor e Fúria não prega ponto sem nó, tudo é muito bem estruturado, para impactar e abrir os olhos do público. Uma aula lúdica de história e de boa utilização do cinema. Gostaria de assistir mais projetos como este no nosso país, contando nossas crenças, tradições e cultura.

 

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 23/08/2013, em Cinema, Crítica e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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