Infância Clandestina mostra o melhor do cinema argentino

Poético, dramático, encantador e real. Essas são poucas palavras com as quais podemos descrever a película argentina Infância Clandestina, de Benjamín Ávila. O cinema argentino tem a tradição de contar belas histórias e apresentar uma fotografia impecável. Mais uma vez, esse costume foi mantido e nos brindou com uma excelente obra sobre o período da ditadura militar na Argentina (1976-1983), a partir da perspectiva de um menino de 11 anos.

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A história é baseada na experiência do próprio diretor, que passou a infância no meio desse conflito político, levado pelos pais que lutavam por seus ideais. Em parceria com o brasileiro Marcelo Müller, ele escreveu o roteiro que mistura dor, amor, fúria, infância e amadurecimento. Na história, Juan (Teo Guitierrez Romero) e sua irmãzinha, de apenas alguns meses, voltam à Argentina, após um período em segurança no Brasil, para reencontrar os pais (Natalia Orero/ César Troncoso) e seu tio Beto (Ernesto Alteiro).

Conforme Juan se adapta à nova vida, ao novo nome (Ernesto) e até a sua nova data de aniversário, o filme mostra o desenvolvimento dos planos de seus pais e seu tio contra o governo e o menino aprende a se defender e a proteger a irmã do pior. No entanto, Juan tem apenas 11 anos e, portanto, possui outros interesses, como María (Violeta Palukas). Ele conhece a menina numa sequência belíssima de dança rítmica, que mistura uma linda fotografia com arte em graphic novel, enquanto ela embala uma fita amarela, é amor à primeira vista.

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O filme é recheado de cenas líricas como essa, tanto da mãe com os filhos quanto de Juan e María juntos. Boa escolha do direto ao utilizar o recurso da linguagem dos quadrinhos no filme, ressaltando ainda mais a sua beleza. As cenas com maior apelo emocional se transformam em desenhos, que demonstram os sentimentos com mais profundidade em cada traço da pintura.

Outro ponto alto da obra é a linha condutora da narrativa construída por meio de um singelo objeto, porém de grande importância para trama. O roteiro todo é muito bem amarrado. O elenco premiadíssimo em vários festivais é excelente, destacando o estreante Teo, que carrega toda a carga dramática do filme nas suas costas, como a dor da perda, o medo de ser pego e uma aventura ao lado do seu primeiro amor. O menino chega a apontar uma arma e tenta fugir do país sozinho com María, acontecimentos que ressaltam a perda da infância causada por uma vida clandestina em cenário político caótico.

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Infância Clandestina também nos remete ao filme brasileiro O Ano em que Meus Pais saíram de Férias (2006), no qual o menino se agarra a Copa do Mundo para escapar da dor da ausência dos pais durante a ditadura. A película argentina, entretanto, possui um encanto maior do que a brasileira. Benjamín Ávila produziu uma verdadeira obra de arte, em um projeto em que todo conjunto deu certo, alindo charme e informação. O longa ganhou 10 categorias do Premio Sur, incluindo melhor filme, e concorre a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 04/01/2013, em Crítica e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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