Resenha#3: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Esta resenha literária é escrita como 21 anos de atraso, por conta da data de lançamento da obra “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Devo me antecipar e dizer que está leitura não é isenta da comparação com outros títulos do mesmo autor e nem da minha posição em relação à religião. O que sugere uma análise totalmente diferente do que já foi dito e escrito sobre esse polêmico livro de José Saramago.

Quando Saramago morreu em 2010, eu havia lido somente uma obra sua, no entanto, foi o suficiente para admirar seu trabalho. Somente um texto já tem o poder de eternizar uma pessoa na memória de muitas outras, como Gabriel García Marques ganhou meu coração com “Cem anos de Solidão”, nem de longe conheço todos os seus texto e não preciso para admirá-lo como escritor. Igualmente acontece com Saramago. Conheci seu modo peculiar de escrita três anos atrás ao ler “Ensaio sobre a Cegueira”, achei fenomenal o modo como não se fez necessário parágrafos, pontos e nomes próprios para história fluir e eu concebê-la em minha imaginação.

JoseSaramago-Evangelho

Novamente fui mal acostumada ao ler “Caim”, o último livro lançado pelo escritor português, e me deparar com uma sátira bíblica nunca vista antes. Um delírio literário apresentando o filho “mau” de Adão e Eva, Caim, que se torna um personagem intenso e cômico, que nos leva a desbravar grande parte do antigo testamento do livro sagrado, revisitado por um novo prisma incomum. Enquanto uns chamam de heresia, eu aclamo a licença poética.

Meu terceiro encontro com Saramago se deu com “As Intermitências da Morte” e meu espanto e estarrecimento diante de cenas tão bem descritas e construídas foi o mesmo. O último capítulo desse livro é um jogo de sentimentos e palavras que fazem os leitores vibrarem a cada compasso da história. A morte nunca vestiu um personagem tão bem.

Li uma biografia fraca sobre o escritor chamada “Saramago”, feita pelo jornalista português João Marques Lopes, que não encontra uma linha narrativa para conduzir e traçar o perfil do aclamado e polêmico ganhador do prêmio Nobel de Literatura. Saramago tem uma história fantástica com o jornalismo, a política e o anti-conservadorismo, que é descrito didaticamente pelo autor de sua biografia e não com a paixão que deveria ser, o que torna a obra um trabalho universitário de baixa qualidade.

Após todo essa descrição do meu relacionamento como Saramago vou finalmente falar do livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Existe uma coisa chamada expectativa, o que a crítica vive criando no espectador de cinema, teatro, show e no leitor. Esse é o trabalho dela. Após me maravilhar diante de três obras do autor posteriores a essa, não tinha como evitar o seu livro mais polêmico. No entanto, termino suas 374 páginas, na edição de 2010, com um sentimento de frustração e alívio, pois foi uma batalha terminar a leitura.

Como todos sabemos, Saramago era ateu convicto, ele sabia que criar uma sátira com o personagem emblemático do fundamentalismo religioso no ocidente era mexer com um enxame de abelhas. Mas, ao ter a prazerosa experiência com “Caim”, fiquei frustrada com os personagens super chatos desse livro. As primeiras 100 páginas são um purgatório, Maria e José são criaturas sem graças e sem vigor para serem protagonistas. O menino Jesus é igualmente chato preso ao pecado que o pai José cometeu.

São parágrafos atrás de parágrafos de lenga-lenga descritivo e nenhum ação, o que me faz querer desistir da história em vários momentos. Quando Jesus parte em busca das suas verdadeiras raízes, a história ganha um pouco de fôlego, mas não suficiente para aguentar esse crescimento lento do futuro Messias. Aquelas descrições envolventes de Saramago só aparecem quando Jesus encontra Maria Madalena, depois da página 200, que no livro diz que com ela “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”.

 O texto traz ainda passagens interessante, que valem a pena serem ressaltadas, como:

“A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, Esse lobo de que falas já comeu o meu pai, Então só falta devorar a ti, E tu, na tua vida, foste comido ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado” (p. 175)

“Pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.” (p. 276)

e ainda:

“Pois é sabido que toda doença é consequência de pecado, por isso, conclusão sobre todas as lógicas, a vera condição duma boa saúde, além de o ser da imortalidade do espírito, e não sabemos mesmo se da do corpo, só poderá ser uma integralíssima pureza, uma ausência absoluta de pecado, por passiva e eficaz ignorância ou por activo repúdio, tanto nas obras  como nos pensamentos”  (p. 337)

É claro que Saramago apresenta seu modo de escrever impecável, mas desta vez o seus personagens não fluem e não animam a leitura. Não sou religiosa e gostaria que a história fosse mais sátira e chacota com as escrituras sagradas, mas ele se detém a apontar apenas algumas questões já batidas e conhecidas nas discussões populares, como a inexistência da virgindade de Maria, os nove irmão de Jesus, o relacionamento carnal com Maria Madalena e a soberba de Deus em relação ao sacrifício de Jesus.

Sendo esse último ponto, um dos outros poucos momentos que se salvam nesse monótono romance. A figura de Deus é interessante, ele se apresenta como um ser totalmente egoísta e soberano, que faz de Jesus seu fantoche – digas o que eu quero e morras para eu ser eternamente lembrado. A conversa no barco entre Deus, Jesus e o Diabo é divertida, afinal o demônio sempre é um personagem cômico, até quando faz maldades sem motivo.

Lendo “Caim”, lançado quase 20 anos depois, vejo que Saramago foi mais audacioso em explorar a podridão e a humanidades dos personagens bíblicos. Jesus é humano, mas de modo enfadonho, é um homem cheio de dúvidas e remorsos, além de ser manipulável, no texto ele não conquista nenhum seguidor ou discípulo por meio de suas palavras, mas faz as pessoas o crerem através de pequenos milagres e curas. O que vale no livro é mostrar que as pessoas o seguiam e o cristianismo foi fundamentado pelo “ver para crer”, e não pela proclamação da fé.

Para um começo tão arrastado até o nascimento de Jesus, a parte do sofrimento e crucificação passam muito rápida e sem destaque, não entendo a escolha do autor. Gostaria que esse lado fosse mais explorado. Acredito que Saramago foi aprimorando sua narrativa ao longo dos anos e essa obra continua a ser uma das mais importantes da sua carreira por causa da polêmica com a Igreja Católica e a proibição da obra durante determinada época. Portanto, ela deve ser lembrado mais por esse aspecto mesmo, do que por ser uma boa história, porque não é.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 17/11/2012, em Literatura e marcado como , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Primeiro, parabéns pelo espaço e pela resenha tão bem escrita. Segundo, penso que, você foi demasiado severa com a obra do eminente autor. É verdade que a primeira metade do livro escolhe protagonistas pouco comuns, é massante, e, faz querer desistir. Não obstante, o livro retoma inconsistências da Bíblia de um modo genial, como por exemplo, a inexplicável brutalidade de jesus para com sua mãe. Ademais, a estranha inversão de papéis que coloca Deus como o maior devedor da humanidade e não o contrário simplesmente é de tirar o fôlego. Enfim, não li Caim, talvez seja melhor. Mas, afirmar que O Evangelho Segundo Jesus não é uma boa história é exagero.

    • Olá, Tiago! Adorei receber seu comentário. É ótimo que tenhamos opiniões divergentes. Gosto da sátira de Saramago, no entanto, a leitura do livro em questão não flui e poucas parte são agradáveis. Portando, continuo a afirmar que não é uma leitura agradável, por isso, não é boa.

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