Resenha#2: Sagrada Família, de Zuenir Ventura

Confesso que nunca fui muito apegada à literatura brasileira, li alguns clássicos somente para conhecer melhor cada estilo de época, e foram poucos os livros que realmente gostei. No entanto, tenho explorado as obras de alguns escritores do século XXI, em busca de algo diferenciado e genial. Não acho que sou exigente, apenas acredito que para fazer literatura é necessário talento e nem todo mundo possui. Já li bastantes textos, desde os mais complexos até os desarranjados, o que não me tornou uma crítica sobre o assunto, mas me deu algum conhecimento para separar o joio do trigo.

É com essa lógica que eu resolvi escrever sobre “Sagrada Família” (Alfaguara, 2012, p.228), de Zuenir Ventura,  que eu já conheço a escrita por meio da coluna no jornal “O Globo”, mas nunca tinha lido nenhum dos seus livro até então. A minha leitura foi sem expectativas e o que começou morno acabou bem quente, com uma história cheia de reviravoltas de uma família e a sua saga a partir da década de 40.

De foma bem leve e descontraída, o autor conseguiu me transportar para a cidade do interior do Rio de Janeiro, Florida, onde as paqueras rolavam solta e o conservadorismo ainda predominava. O narrador da história empreende uma viagem ao passado, na qual ele conta partes da sua infância e adolescência, na casa da sua tia Nonoca, viúva aos 37 anos  e mãe de duas meninas, Cotinha e Leninha, de 15 e 14 anos. A história ainda conta com o pano de fundo do início da Segunda Guerra Mundial e as intrigas policiais da época.

ZuenirVentura-SagradaFamilia

O início da narrativa me lembrou muito Mario Vargas Llosa  contanto sobre a infância no Peru. A semelhança se deu por causa da escolha do ponto narrativo de um menino sobre a vida dos outros e sobre as transformações do pequeno município de Florida. Os personagens característicos da cidade estão todos ali, do fofoqueiro ao policial malandro. O mais agradável é que a história da cidade é contada a partir dos costumes de seus habitantes e os pequenos acontecimentos durante os anos. Ao longo da narrativa, o escritor não nos promete uma grande aventura e nem o desvendar de um grande mistério, no entanto, continua sendo um bom enredo sobre as relações de lugarejo distante, na época da Segunda Grande Guerra.

Apesar da falta de suspense, somos surpreendidos. O final se assemelha muito as reviravoltas de Nelson Rodrigues, bem espero não estragar a leitura com essa observação. Mas a obra segue os padrões morais, o amor prevalece e o mal paga o seu crime. Sem percebermos, esse livro nos proporciona a sequência do desenrolar de um segredo, que nem ao menos sabemos que estamos procurando, entretanto, é determinante para fechar a história

Outro ponto alto do livro é a descrição dos lugares, nos levando a estar junto  com o narrador durante a  história, e a construção  do  caráter de cada personagem, que nos revelar os seus pensamentos e as dificuldades se enquadrar às regras de convivência social.

“Sempre que vinha à cidade, gostava de ficar  ali de manhã apreciando o movimento. De onde estava podia  ver tudo. No banco ao lado, um velhinho de cachecol cochilava, uma jovem mãe empurrava o carrinho com um  bebê agasalhado. No canteiro em frente, crianças barulhentas brincavam, fazendo uma algazarra que divertia.” (p. 60)

“Sagrada Família” é um bom livro sobre relações pessoais e tramas familiares. Com uma narrativa leve e fácil, a obra é rápida e,  ao mesmo tempo, agradável aos mais exigentes paladares. O autor Zuenir Ventura, com a experiência de  professor,  jornalista e escritor, conseguiu abordar um tema corriqueiro, um formato exemplar e trouxe um ar fresco sobre a vida nas cidades pequenas. Zuenir nasceu em Além Paraíba, um município do inteiro de  Minha Gerais, que atualmente conta com 34.341 habitantes (IBGE, 2010), o que pode ter sido o ponto de partida de toda essa obra. No entanto, ele mudou para o estado do Rio de Janeiro ainda jovem e passou a adolescência em Friburgo, região serrana fluminense.

Como precisava trabalhar para estudar, ocupou os mais diversos cargos, desde aprendiz de pintos de paredes até faxineiro de um laboratório de prótese dentária. Bem mais tarde, o escritor se formou em Letras e foi professor da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Rio de Janeiro. É autor de Cidade partida, Inveja – Mal Secreto, Minhas histórias dos outros, 1968 – O ano que não terminou e 1968  – O que fizemos de nós. Quem sabe futuras leituras?

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 06/10/2012, em Literatura e marcado como , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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