Menos que Nada – filme nacional discute sobre psicanálise e saúde mental

O cinema brasileiro passou por um grande período de limitações temáticas, em que a maioria das produções falava sobre nossos aspectos sociais, acontecimentos da nossa histórias e adaptações da nossa literatura. A criatividade e o originalidade passavam longe de roteiristas e cineastas nacionais. O suspense, o policial, o terror e tantos outros gêneros foram deixados de lado pelos produtores e apenas encontrávamos filme com essas características no cenário independente.

Nos últimos cinco anos, no entanto, conseguimos vislumbrar histórias diferentes e interessantes surgirem no panorama nacional. É assim que eu enxergo “Menos que Nada”, do diretor e roteirista Carlos Gerbase (3 Efes e Tolerância), um filme diferenciado, com a proposta de discutir temas relevantes e poucos usuais na nossa cinematografia, como o sistema manicomial brasileiro, a esquizofrenia e a psicanálise. A ideia é boa e os 15 primeiros minutos do filme conseguem realmente prender o espectador, entretanto, muitos detalhes do enredo deixam a desejar.

O longa-metragem conta a história de Dante (Felipe Kannenberg), que está internado em um hospital psiquiátrico há muito tempo, abandonado pela família e amigos. O paciente apresenta sintomas de esquizofrenia e diariamente repete os mesmo movimentos. Com a chegada da médica residente Dra. Paula (Branca Messina) ao instituto,  é apresentada  uma  nova chance para Dante. Paula se interessa pelo seu caso e tenta descobrir o que realmente aconteceu com ele, para isso, ela  passa a  investigar o misterioso passado do seu paciente e as possíveis causas do seu trauma.

Uma parte bastante interessante do enredo é a dicotomia entre a psiquiatria e a psicanálise. Quando a médica decide reduzir a sua medicação e tratar o paciente por meio da fala, conversando diariamente com ele, a trama nos mostra como o discurso pode ser um método de cura. O filme caminha bem no início e sugere um bom suspense psicológico, envolvendo o espectador na curiosa saga à destruição de Dante (nome que faz analogia à obra A Divina Comédia). Já nos primeiros minutos obtemos alguma informações importantes para a construção desse percurso, em que podemos analisar a formação do recalque no personagem principal, defino por Freud como uma resistência que impede que algo seja percebido.

Na infância, Dante é repreendido pela mãe ao receber o beijo de uma coleguinha, que o adverte do comportamento inadequado e o proíbe de encontrar a garotinha. Logo após esse fato, a mãe dele morre e podemos compreender que surge um trauma a partir daí, o que também abre discussões para as teorias freudianas da relação entre mãe e filho, o famoso “complexo de Édipo”.

Por meio dos discurso colhidos pela médica, conhecemos a vida adulta de Dante e as pessoas do seu passado antes do colapso nervoso. Tudo começa a partir do reencontro com Berenice, a amiga de infância, agora casada com um homem violento, e, assim, vemos a construção da história pelas perspectivas também da sua professora Laura (Carla Cassapo) e do seu pai Gregório (Roberto Oliveira). Os depoimentos desses personagem levam Paula até René (Rosane Mulholland, atual professora Helena de Carrossel), uma paleontóloga renomada por quem Dante tinha uma queda.

Após apresentar esse cenário podemos apontar várias incongruências de atuação e, principalmente, de roteiro. O filme possui um desfecho raso, quase bobo, para uma trama que tinha tudo para ser envolvente. Algumas cenas beiram o amadorismo cinematográfico, como a representação desnecessária de um casal da “época das cavernas”. Os atores também deixam a desejar,  o Ciro (Alexandre Vargas), marido de Berenice, é o mais canastrão da história e o ator não acha um tom certo do início ao fim do longa. Rosanne Mulholland também não convence como paleontóloga e muito menos como vilã, além do mais o romance entre René e o Dante não flui.

O grande destaque dessa história é Felipe Kannenberg que se entrega ao personagem esquizofrênico e mostrar todas as nuances de sua personalidade complexada, retraída e ingênua. Apesar de uma produção razoável, o suspense e a interpretação de Kannenberg fazem o espectador acompanhar a história até o último minuto. Não é um filmaço, mas revela outra faceta do cinema nacional e regional do Rio Grande do Sul.

O principal diferencial do longa-metragem é o seu lançamento transmídia, que promove ao mesmo tempo a sua distribuição nos cinemas de sete cidades brasileiras e em DVD, além da  disponibilização gratuita na internet pelo SundayTV até o dia 2 de setembro de 2012. Não custa nada assistir!

Veja o trailer:

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 24/07/2012, em Cinema e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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