Febre do Rato alça o cinema brasileiro à condição de poesia

“O que é a anarquia diante da prisão doentia da paixão?”, diz o poeta Zizo. Por meio do personagem de Irandhir Santos, Claudio Assis, Hilton Lacerda e Walter Carvalho construíram um dos melhores filmes brasileiros desse ano e, por que não, dos últimos anos. As palavras recitadas pelo poeta-anarquista transmitem a dinâmica da vida de liberdade, sexo, paixão e prazer diante da fria realidade das prisões sociais.

Segundo o protagonista as pessoas carecem de ousadia e ele tenta alcançar o mundo a partir do seu jornal “Febre do Rato”, onde publica seus poemas e suas ideias contraditórias ao status quo. Zizo sai pelas ruas com o alto falante chamando as pessoas a abrirem sua mente, durante as horas do dia o poeta transforma cotidiano em verso e a noite se entrega ao sexo.

Apesar de Irandhir tomar a tela para si, outros personagem chamam à atenção, como o casal formado por Pazinho (Matheus Nachtergaele) e Vanessa (Tânia Granussi), que é um transexual e estão em crise no relacionamento por causa das traições de ambos.

Pazinho é o melhor amigo de Zizo, quando o poeta declama seus versos ao confidente, ele sempre responde que não entendeu nada. Essa brincadeira coloca o espectador em atenção, será que quem assiste também não entende a obra do poeta Zizo? O ápice dessa história é o encontro de Zizo com Eneida (Nanda Costa). Não é amor a primeira vista que acontece, mas uma atração, um desejo do poeta em possuir o corpo da mulher que ele cobiça. Eneida, no entanto, interrompe a liberdade de Zizo ou não se deixar tocar.

O gozo interrompido é uma das chamas dessa narrativa, quando não concretizado o desejo de Zizo toma conta dos seus pensamentos, seus poemas, seus manifestos. Uma das cenas mais emblemáticas e polêmicas do filme desencadeia essa sensação de longe do alcance.  Após um diálogo pesado entre Eneida e Zizo, a menina diz que precisa mijar, encantado o poeta pede para olhar a ação. Zizo estende a mão e sente o mijo quente de Eneida escorrer pelos seus dedos, depois do desatino cometido, ambos decidem não se encontrar mais.

Não é uma cena usual no cinema e, por isso, perturba os desavisados, mas naquele contexto constrói o momento mais íntimo entre os dois. Claudio Assis abusa do nu frontal, abusa do sexo e abusa do pudor do público, mas mesmo assim consegue compor uma ode à poesia, grande parte dessa composição se deve a fotografia de Walter Carvalho. A escolha pelo filtro preto e branco em todo o filme aumenta a carga emocional e revindicadora da história. Outro ponto forte na composição das filmagens é plano área, as cenas que acompanham os personagens de cima sugere uma submersão maior com a história.

Além de uma crítica social, Febre do Rato mostra as paisagens do Recife e, por meio das piadas no roteiro, apresenta também as dificuldades da cidade. Não assisti aos outros dois filmes de Claudio Assis, Baixio das Bestas e Amarelo Manga, e não pretendo comparar obras e nem especular sobre a evolução do artistas, mas é necessário ressaltar que o cinema arte proposta pelo diretor é de alta qualidade, além de recompensador para os fãs do cinema nacional.

Minha conclusão é: para gostar do filme é necessário enxergá-lo em sua construção poética e não apenas o visual.

Febre do Rato estreou no última dia 22 de junho nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, apenas com 10 cópias. O filme foi o maior vencedor do Festival de Paulínia 2011,  somente a congratulação de roteiro ficou de fora. A entrega dos atores é tão sincera que acredito que ninguém leve os prêmios de melhor atuação de 2012 de Irandhir Santos e Nanda Costa.

Assistam:

Anúncios

Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 30/06/2012, em Cinema e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. a que ponto chegamos, uma cena nojenta e idiota virou poesia, olha a falta de cultura em que chegou nosso país

    • Pois é…. No dia em que tivermos cavalos transando com crianças enquanto idosos vomitam em filhotes de cachorro, filmado em preto e branco, claro, e com dialetos regionais, talvez venhamos a conhecer o Shakespeare do cinema nacional, por que nao?

  2. é o pior filme pornografico que ja vi

  3. Marcio aquino

    Infelizmente estes pervertidos estão aos poucos acabando com a verdade cultura brasileira. Verganha!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: