Resenha #1: O Cemitério de Praga, de Umberto Eco

Antes de começar a falar sobre o último romance de Umberto Eco, preciso confessar que nunca tinha lido um livro do autor antes. O nome do escritor foi exaustivamente repetido durante minha vida acadêmica, no entanto, o interesse pela sua obra passava distante da minha lista de leitura. Um dia sem querer li uma entrevista do escritor e semiólogo no jornal O Globo e me encantei pelo homem que falava sobre o futuro da literatura, a construção da ficção e a política da Itália. Foi assim que eu descobri o livro “O Cemitério de Praga” (2010) e fiquei curiosa sobre o que seria essa obra “difícil” e “para poucos”, da qual o autor falava. Apenas este ano tive a oportunidade de lê-la e chegar às minhas próprias conclusões.

Nesse romance mais verdadeiro do que verossímil, o escritor se utiliza de fatos históricos para desenvolver uma narrativa sobre a construção social, política e religiosa do século XIX, que tem como principal reflexo o antissemitismo que eclode no século XX por meio de Hitler. As guerras pela unificação da Itália e a revolução francesa estão descritas na história. Em várias partes, eu me lembrava das minhas aulas do ensino médio e do romance Les Miserábles, de Victor Hugo, que também é citado na trama.

Curioso que desde o início do livro, Eco propõe um jogo de narradores com o leitor, criando um mistério sobre a dupla personalidade de seu protagonista, Simone Simonini. Esta construção, no entanto, eu acho muito fraca no romance, porque o mistério realmente não se constrói e o início do livro parace soar meio arbitrário e forçado.  Há boas ideias no começo da história, mas elas aparecem desconjuntadas. Como o avô do personagem Simonini, que sem meandros destila seu ódio contra os judeus durante toda a infância do menino, além de degradar a cultura e a língua dos alemães com uma linguagem pesada e pungente. Como na parte que ele descreve:

“O abuso de cerveja torna-os incapazes de ter a mínima ideia da sua vulgaridade, mas o superlativo dessa vulgaridade é que não se vergonham de ser alemães. Levaram a sério um monge glutão e luxurioso como Lutero (pode-se desposar uma monja?), só porque arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles. Alguém não disse que abusaram de dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o cristianismo?” (p.16)

O personagem Simonini é totalmente egoísta e segue as suas vontades sempre com o objetivo de ganhar dinheiro e fugir dos apuros que se mete, tanto que para isso não mede as suas ações e comete muitas traições e homicídios. Uma coisa é bastante irritante durante toda a narrativa: as descrições por completo de receitas e refeições realizadas pelo protagonista, que encontra na comida seu único prazer na vida. Acredito, entretanto, que ele também se regojiza ao aplicar golpes e disseminar as lendas maldizentes sobre jesuítas, maçons e judeus.

A narrativa se desenvolve por meio do objetivo de Simonini de disseminar o antissemitismo, entretanto, o personagem trabalha como espião ora para os franceses ora para os russos, e, por isso, seus caminhos são sempre atribulados e falaciosos. O fio condutor da história é esta obsessão contra judeus, tanto que Simonini leva décadas para criar a falsificação de uma conspiração de rabinos que se reúnem em um cemitério em Praga com o propósito de dominarem o mundo. O documento falso é vendido à polícia secreta russa como “Protocolos dos Sábios de Sião”, escrito a partir das cópias de uma carta de seu falecido avô e obras pouco conhecidas de escritores revolucionistas.

Este jogo de espião realizado pelo personagem também incomoda os leitores menos aventureiros. Digo isso porque, como leitora, gosto bastante de viagens e aventuras lúdicas, mas para esse texto a fuga da realidade não se encaixa. Simonini, que se descobre também o abade Dalla Piccola, participa de eventos históricos, se envolve com alto escalão de poder das forças militares de França e Rússia, presta serviços de falsário por vários países e é, por vezes, desmarcado, mas sempre consegue se safar. Claro, que em determinados momentos, eu ficava maravilhada com as artimanhas do protagonista, mas também nos sugere uma trama mal estrutura com o seu cenário. Ao mesmo tempo em que eu gostava das arapucas montadas pelo narrador, me repugnava com a descrição escarnecedora que ele fazia do sexo oposto, entre outros aspectos de sua personalidade mal engendrada. Ao ponto que após se deixar levar para um ritual e ter uma conjunção carnal, como ele diz, com uma judia, Simonini acredita que a única solução é matá-la, também porque não consegue conviver com a possibilidade de gerar um filho judeu.

Aprecio o mergulho na história do século XIX ofertada por Umberto Eco e, após um  começo difícil, nos acostumamos às aventuras de Simonini que participa de várias ocasiões memoráveis como a Comuna de Paris e o Caso Dreyfus, além de passar por personalidades, como Giuseppe Garibaldi, Freud e Alexandre Dumas. O antissemitismo impregnado pelo avô de Simone é o principal plano do personagem, como se ele devesse a desmoralização da classe para o homem que o criou. Ao final do livro, Simonini se diz feliz pela contribuição do extermínio dos judeus:

“Talvez reúnam meus protocolos e um documento seco e burocrático, desprovido da sua ambientação original. Ninguém quererá lê-lo, terei desperdiçado minha vida para produzir um testemunho sem objetivo. Ou Talvez seja assim que as ideias dos meus rabinos (afinal, eram sempre os meus rabinos) se difundirão pelo mundo e acompanharão a solução final”. (p.465).

Após conseguir realizar o desafio de ler e interpretar a obra “para poucos”, acredito que vale a pena o esforço de penetrar em uma leitura tão densa em história, análises de preconceitos e teorias conspiratórias. As falsificações apresentadas no enredo mostram a importância da ficção para contar uma história. Por exemplo, a partir de teorias não comprovadas o autor constrói uma cadeia de acontecimentos históricos sobre outra óptica. Confesso que não é uma narrativa fácil e considero que cada leitor ao terminá-la se torna um pouco mais erudito.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 20/06/2012, em Literatura e marcado como , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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