Muié, bicho bão! – A arte de rua tem valor?

Quando falamos em arte de rua, aposto que a primeira coisa que vem a mente são os grafites nos muros das avenidas. Contudo, existem outros tipos de manifestações artísticas que não nascem nas esquinas e nem se molduram nas paredes, mas perambulam pelas calçadas atrás de reconhecimento. Sempre acreditei que o reconhecimento para um artista tinha mais valor do que o dinheiro, na verdade, ainda acredito que o valor de uma obra não se mede.

Eu estava em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) esta noite, quando um jovem moreno, de cabelos desgrenhados e bolsa tira a colo me abordou oferecendo um pedaço de papel. Após eu pegar o objeto ofertado, ele começou a recitar versos olhando para mim, enquanto eu folheava o material. O papel tinha uma capa e continha frases separados em oito estrofes. Ele acabou de recitá-los e falou alguma graça sobre a sua região de origem. Por fim, perguntou se eu poderia ajudá-lo com o seu trabalho e disse a frase: “você sabe que arte de rua não é reconhecida…” Exista mais palavras nesta sentença, no entanto, apenas fixei nove delas.

Como medir um valor para o trabalho de alguém gravados em folhas xerocadas em formato de livreto? O que conta é a forma ou o conteúdo? Como saber se este trabalho é realmente do cara que me abordou? Em frações de segundo essas questões me ocorreram e, então, eu lhe entreguei um moeda de um real, sorri e fiquei com o poema para mim. Ele disse que o meu sorriso era o melhor pagamento. Cortesia, gentileza, xaveco? Escolho outra opção, reconhecimento. Ao lhe entregar uma quantia em dinheiro, eu não paguei o papel ou a palavra, mas a criação do autor. A forma que ele recitou os versos foi o que me fez gostar daquelas frases, conhecer o produto que ele me oferecia e acreditar que havia qualidade naquele material.

Consumimos tantas coisas diariamente, será que pensamos no real valor delas? A arte não tem preço, produzir uma obra tem um custo e conquistar as pessoas com seu trabalho é impagável. Mas foi “Muié, bicho bão!” que arrematou todas essas ideias na minha cabeça.  Conheçam , portanto, a arte de rua do autor mineiro Rogério Snatus:

“Ói só como acontece
As coisas nessa vida,
Paixonei logo que vi
Uma linda rapariga.
Aparecei de repente.
Feito a estrela luzente.
Feito joia polida.

Seu sorriso tão alvo,
Como Lua na primazia,
Alumiava  toda parte,
Como o Sol ao dia.
Bem no cume azul,
Alem do cruzeiro sul,
Veio a essa poesia.

Tú além de muito bela,
Joia mineira, é formoza
Com seu jeito agridoce
E essa pedras preciosas
Que seu rosto enfeita,
É a obra mais perfeita
Que se viu na história

Meu cavalo é alado
Corre que só o estopô
Quem viu ele tá abismado
Pois nem sombre viu o doutor.
De oxossi tomei emprestado
Para buscar o meu amor.

Ô cavalo castanho careta;
Moça da anca rotunda;
Pois muié pra ser bonita
Tem  que ser mantiúda.
Dos olhos isverdiados,
Um charme no rebolado
E a crina cabeluda.

Vai meu cavalo azulão
Minha donzela buscar
Quando achar minha fror
Faz ela te pongar
Traga rápido a rapariga
Que no coração tem guarida
Pra nós três galopar.

É minha nega galega
Vamos pra onde? Sei lá,
As patas do meu azulão,
De ferradura noa aguentá.
Seja céu, deserto ou inferno.
No verão, outono ou inverno.
Primavera nós sempre verá

Ê coisa mais boa na vida
É deitar, viver e sonher
Do lado d’uma rapariga
Na rede ou na esteira se render
Cafungando ou fazendo cêra
Vivendo qualquer doidera.
No ninho até amanhecer.”

(Muié, bicho bão! – Rogério Snatus)

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 10/06/2012, em Artes e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Obrigado pelo reconhecimento. Apareça toda quarta no nosso sarau na sinuca bambina em botafogo. Bjos!

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