Mario Vargas Llosa, a literatura peruana

Minha curiosidade sobre a obra de Mario Vargas Llosa surgiu quando ele lançou o livro “Travessuras da Menina Má” (2006), que eu comprei na Bienal do Livro de 2007, mas apenas li em 2010. Acredito que o título tenha me chamado atenção na época pelo fenômeno que tinha sido a obra do australiano Markus Zusak, “A Menina que roubava livros” também de 2006. Acredito que usar o substantivo “menina” mais alguma coisa virou moda entre os editores após ambos os lançamentos, já vi “A menina que não sabia ler”, “A menina dos pés de vidro” etc.

O texto, no entanto, não é sobre isso. Meu interesse pelo escritor Vargas Llosa aumentou ainda mais em 2010, quando os membros da academia sueca concederam o prêmio Nobel de Literatura a ele por “sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual”. No mesmo ano, eu li o único livro do premiada que tinha em mãos e para minha constatação eu amei cada página de “Travessuras da Menina Má”.

O bom menino com suas breguices amorosas e a menina má são um prato cheio de intrigas, aventuras e viagens pela história e pelo mundo. Tenho um prazer imenso quando um livro consegue me deslocar para o local dos acontecimentos e a escrita do peruano faz isso muito bem. Acima de tudo a narrativa é sobre uma história de amor sem sentimentalismo. Existe narrativa amorosa assim? Vargas Llosa mostra que é possível o amor crescer conforme o sofrimento também aumenta. Ricardo ou Ricardito, personagem central da trama, tinha apenas um sonho: sair de Lima e morar em Paris, o que ele consegue ainda jovem como tradutor da Unesco.

Outro ponto de desejo do personagem, contudo, era possuir a garota ousada que ele conhece ainda menino na sua cidade natal no Peru, durante a década de 1950. O reencontro dos dois em Paris reacende a vontade de Ricardito e toda a sua confusão amorosa pelo resto da vida. O romance se desenrola ao longo da história de forma sempre indiferente pela menina má, enquanto nós passeamos pela França dos anos de 1960, Londres na época dos hippies, uma Tóquio da máfia organizada e ainda pelas transições políticas de Madri. Ao que me lembro, sai arrasada ao final daquela leitura com tantas questões na cabeça que se não pegamos um lápis e um papel logo, elas se confundem e somem no fundo dos nossos pensamentos. E foi o que aconteceu.

“– Eu faço das duas maneiras, e desse jeito sou feliz, cara – confessou, relaxado. – Acho que gosto mais de garotas que de garotos, mas de qualquer maneira não me apaixonaria nem por um nem por outro. O segredo da felicidade, ou, pelo menos, da tranquilidade, é saber separar sexo e amor. E, se possível, eliminar da vida o amor romântico, que é o que faz sofrer. Assim se vive mais sossegado e se aproveita mais, pode crer.”

(Travessuras da Menina Má, 2006, página 91)

Encantada com a escrita do ensaísta, jornalista e político peruano, eu procurei outros livros dele e acabei por comprar “Pataleão e as Visitadoras” (1973) em um sebo virtual no ano passado, entretanto, não o li. Há duas semanas, eu e Vargas Llosa nos encontramos novamente por meio do romance “Elogio da Madastra” (1988) e desta vez ele me pegou de jeito com menos páginas, mas com um jeito peculiar de contar uma história de pedofilia e desejos secretos.

Lucrecia acaba de completar 40 anos e se sente a mais feliz das mulheres com aparência jovial e um casamento perfeito, no qual ambas as partes do matrimonio se sentem completas. A única dúvida da mulher seria a aceitação do filho pequeno do seu marido, por ocupar o lugar da sua falecida mãe. O menino Alfonso, no entanto, aparenta demonstrar demasiada afeição por ela. Daí nasce uma trama recheada com as fantasias eróticas do casal e os rituais perfeccionistas de Rigoberto.

As descrições da higiene detalhista do personagem são tão profundas que nos dá a sensação que faltamos respeito ao nosso corpo. Apreciei cada palavra dos capítulos de sonhos e de atividades consideradas banais, enquanto aumentavam as dúvidas de dona Lucrecia sobre os sentimentos do enteado e as graças de Rigorberto ao acreditar que encontrou a plena felicidade na idade madura ao lado da nova esposa.

Acredito que o choque final é esperado ansiosamente ao decorrer das linhas, mas mesmo assim quando acontece sabemos que não é um fim, mas apenas um dos pontos desfeitos.

E tudo começa assim:

“No dia em que fez qua­renta anos, dona Lucrecia encon­trou em cima do tra­ves­seiro uma mis­siva de traço infan­til, cali­gra­fada com muito carinho:

Feliz aniversário, madrasta!
Não tenho dinheiro para lhe dar nada, mas vou
estu­dar muito, tirar o pri­meiro lugar e isso vai ser o
seu pre­sente. Você é a melhor e a mais bonita de todas
e eu sonho toda noite com você.
Feliz ani­ver­sá­rio outra vez!
Alfonso”

Leia um preview da obra aqui e se prepare para querer ler mais e mais as obras de Mario Vargas Llosa, assim como aconteceu comigo.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 06/05/2012, em Literatura e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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