JT – Um conto de fadas punk – Review

O que é realidade? Alguns dizem que é tudo que se pode tocar. Então os outros sentidos não seriam reais. O que vemos, ouvimos ou saboreamos não é real? As experiências e as sensações não são objetos palpáveis, porém podemos descrevê-las como acontecimentos reais dando características e explicações.  O relato de uma experiência, no entanto, é apenas um modo de observar determinado fato e não compreende a realidade em si. Ou seja, ele passa a ser um produto subjetivo da parte que o exprime.

O prelúdio acima é apenas uma tentativa de transmitir as minhas sensações durante a apresentação do espetáculo “JT – Um conto de fada punk”, de Paulo José e Susana Ribeiro. Primeiro acreditei que era a história fictícia de um popstar americano, depois com os depoimentos de celebridades no contexto da peça, confiei que tudo aquilo era real, mas logo após a história se desconstrói inteira e mostra uma terceira face e, por fim, fico na dúvida se é realmente um personagem de teatro ou uma biografia musical.

A narrativa devastadora nos cerca de todos os lados e prende a atenção o tempo inteiro ao ritmo do rock. O que eu mais gosto no teatro é capacidade de transportar a nossa visão para diversos lugares apenas em um palco. E isso é realizado com grande êxito pelo espetáculo “JT”. O som do punk rock e as constantes dúvidas durante o desenrolar da história me fascinaram, afinal de contas estava tudo diante dos meus olhos e conseguiram pregar uma peça nos espectadores na plateia, que é duas vezes mais difícil que por meio dos recursos das câmeras.

Após a apresentação, busquei na internet referências sobre a existência dos personagens JT Leroy, Speedi ou Laura Albert. O escritor e músico JT Leroy realmente nunca existiu. Ideia que confronta o nosso atual contexto social, em que celebridades surgem do nada pela internet e são sustentadas pela mídia, inquestionavelmente.  Personagens que se tornam reais legitimados apenas pela “geração midiática”.

JT Leroy era uma pessoa inventada pela mente fértil de uma cantora de punk malsucedida líder da banda “Daddy don’t Go. Ela criou a vida de um garoto abusado sexualmente quando criança pelo namorado da mãe adolescente, que se tornou morador de rua e prostituía para sobreviver. O jovem, no entanto, consegue reconstruir seu caminho por meio da literatura, escrevendo suas memórias. A história encantou a mídia  e os seus livros autobiográficos fizeram enorme sucesso, afinal todo mundo adora um sensacionalismo.

É uma história real de ficção por meio da farsa do real. Confrontar realidade e falsidade é confuso (sempre será), mas a sensação do texto de Luciana Pessanha e as atuações, principalmente de Débora Dubooc (Speedi/Laura Arberte), é de que estas conexões com o real e o fictício é apenas uma questão de montagem, ou melhor, astúcia.

“Eu não criei o JT porque falhei como uma cantora punk – ou porque falhei em qualquer outra coisa. Eu criei o JT porque o mundo é que me falhou. O abandono, a institucionalização, o desamparo e o viver nas ruas, tudo isso fez parte de minha adolescência. E o mais importante: eu criei JT porque acreditava que tinha o direito a usar múltiplos métodos para me expressar e para expressar minha percepção do mundo ao meu redor. O resultado foi um monte de coisas, mas jamais uma travessura”. (Laura Albert)

O texto é livremente inspirado nas obras “Maldito Coração” e “Sarah”, da Geração Editorial, e “Girl, Boy, Girl”, da Seven Stories, além de matérias publicadas por site e jornais norte-americanos. Este conjunto na mão de Luciana Pessanha se tornou uma ótima dramaturgia e um jogo de reflexões. Não conto mais para não estragar a sensação de imersão e descobertas que a peça propõe.

No CCBB Rio de Janeiro até dia 27 de maio de 2012, com Débora Dubocc, Natália Lage, Hossen Minussi, Nina Morena e Roberto Souza.

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Sobre Letícia Alassë

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, Editora e Crítica do blog Centro do Cinema e Translação de Culturas e idealista por convicção. Aos 27 anos tenta descobrir a melhor maneira para viver.

Publicado em 06/04/2012, em Teatro e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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